Fernando Gomes, criador do boneco Júlio.

Entrevista realizada por Izaías Correia

fernando2Fernando Gomes é ator, confeccionador e manipulador de bonecos, além de diretor de programas de TV.

Estreou na televisão em 1996 no programa Bambalalão da TV Cultura, e depois disso tem participado de quase todos programas infantis da emissora, como Rá Tim Bum, X-Tudo, Castelo Rá Tim Bum, Cocoricó (1a. fase) e Ilha Rá-Tim-Bum.

Em 1997 passou a dirigir programas como Agente G, Eliana e Alegria, Ilha Rá-Tim-Bum e a atual fase do programa Cocoricó.

Atualmente está em finalização de mais um projeto na TV Cultura, que deve estrear ainda neste semestre.


“É muito relativo o que é bom e o que é ruim,
até porque, muitas vezes, um justifica o outro.”

Fernando Gomes

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Fernando Gomes e seu boneco Júlio

INFANTV – Fernando, você ingressou na TV Cultura no Bambalalão. Como foi esse início?
FERNANDO GOMES – Minha história na TV Cultura é bem curiosa, porque comecei a trabalhar lá de uma forma um tanto inusitada. Em 1985 descobri meio sem querer um programa infantil chamado Bambalalão. Comecei assistindo de vez em quando, e quando dei conta estava gravando o programa em casa para que pudesse assistir todos os dias.

Me divertia muito, em especial com os quadros de teatro de bonecos, e passei a me perguntar porque aqueles bonecos eram, para mim, tão especiais, diferentes de outros, dos outros programas infantis. A diferença estava na genialidade de seus manipuladores, especialmente Memélia de Carvalho e Chiquinho Brandão. O programa era ao vivo, e essas entradas de bonecos durante o programa eram feitas sem texto pré definido, ou seja, os manipuladores “criavam” o que iam dizer na hora, o que gerou vários momentos antológicos dentro desse programa. A liberdade que esses atores tinham os levaram a criar personagens inesquecíveis e com personalidades bem marcantes, muitas vezes, aparentemente, até contraditórias a uma TV educativa, pois tínhamos lá por exemplo um menino bem malcriado, o João Balão, interpretado pelo grande Chiquinho Brandão, que assoava seu nariz na cortina do teatro de bonecos e se não bastasse isso, ainda fazia uma bolinha de meleca com a mão e quando jogava para cima, esta caía com um som de explosão e câmeras tremendo. Tinha também outro personagem do Chiquinho que era considerado o maior sucesso do programa: o Bambaleão, um leãozinho paquerador ao extremo e profundo mau caráter.

Onde entra minha relação com a TV Cultura e toda essa história? Certo dia eu estava no teatro, esperando um espetáculo começar, e ouvia uma voz muito familiar ao meu lado. Era a Memélia de Carvalho, e eu me apresentei, e contei a ela um pouco sobre mim, na época ator amador e recém formado em artes plásticas. Disse a ela que adorava o programa e por influência deles havia feito um boneco manipulável.

Ela se interessou muito e pediu para conhecer este boneco. Marcamos novo encontro, e quando ela o viu, adorou, ficou encantada e me pediu para usá-lo no programa. Claro que eu adorei e cedi o boneco à ela. Quando ela chegou no programa com ele, na época batizado de Boninho, vários dos atores me procuraram para que fizesse bonecos para eles. Eu não tinha absolutamente nenhuma prática e levava meses para fazer, mas acabei fazendo amizade com o elenco, o que levou com que eu fosse recomendado pela Helen Helene para cobri-la durante uma semana em que ela teria de se ausentar do programa. Fui, adorei, mas uma semana passa muito rápido. Na semana seguinte o sonho acabou, e eu estava quietinho quando tocou o telefone e era a diretora (Zita Bressane, na época) me perguntando porque eu não estava lá para gravar o programa. Voltei e desde então nunca mais saí da TV Cultura.

ITV – E como a manipulação de bonecos começou a fazer parte da sua vida?
FG – A minha primeira influência foi sem dúvida nenhuma um programa que tive a sorte de ser exibido durante minha infância: Vila Sésamo, com os maravilhosos bonecos criados por Jim Henson, também criador do genial Muppet Show. Depois também assisti a primeira temporada aqui no Brasil do Topo Gigio, que dividia o quadro com Agildo Ribeiro, e já adulto os bonecos do Bambalalão, como disse.

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Recebendo o Troféu Imprensa.

ITV – De onde você tira referências para a criação de um boneco? Eles são inspirados em alguém que você conhece?
FG – Das formas mais variadas. Muitas vezes brincando com o material sai alguma forma interessante e isso já pode significar o nascimento de algum personagem. Alguns bonecos podem até ficar coincidentemente parecidos com alguém, mas inspirado mesmo em alguém que eu conheço acho que só fiz um, usado no programa Agente G da TV Record. Ele era a cara do diretor do programa na época que também havia passado pelo Bambalalão: Arlindo Pereira.

ITV – Teve algum personagem com características suas?
FG – Não físicas, mas pessoais. Meu primeiro boneco na TV era o Beleléu, um carioca, torcedor do Flamengo assim como eu.

ITV – Quais as principais diferenças nas características de um personagem criado na época do Bambalalão para outro criado nos dias de hoje?
FG – Em programas como o Bambalalão onde não havia texto para os bonecos era mais fácil que os personagens sofressem influência dos manipuladores. Já programas como o Castelo Rá Tim Bum, Cocoricó e outros onde se segue um roteiro, o que você faz é dar vida a um personagem dentro de seu habitat ficcional.

ITV – Tem como apontar um personagem preferido ao longo desses anos?
FG – É aquela velha história de você pedir a um pai que diga qual filho gosta mais. Mas tenho muita saudades de personagens que já foram, como o Beleléu e o Gaspar do Bambalalão, o X do X-Tudo e principalmente o Mestre Iodo, que era o braço direito do Gérson de Abreu no Agente G.

ITV – Depois de criar, confeccionar e começar a manipular um personagem, você chega a penetrar tanto no mundo dele a ponto de tratá-lo como um ser vivo, mesmo quando ele não está sendo manejado?
FG – Mais ou menos. Claro que existe um carinho e um respeito muito grande por estes personagens, mas é mais ou menos igual ao carinho e apego que um ator tem, ou deveria ter, pelo personagem que está interpretando. Se de repente eu fizer um assassino no cinema ou teatro, por melhor que este personagem seja, ele existe no cinema ou no teatro. Adoro os bonecos que fiz e faço, mas nunca conversei com eles em casa.

ITV – Quando você cria um boneco que será manipulado por outro ator, como o Bebê e Vovô Alegria da Eliana, fica algum ciúme?
FG – No início da carreira sim. Mas acho que isso está ligado a uma ansiedade típica de quem está entrando na profissão. Hoje em dia já crio os personagens pensando nos prováveis manipuladores e só torço para que eles sejam bem manipulados, tratados com cuidado e respeito, e que sejam explorados ao máximo dentro de sua expressividade.

ITV – Já aconteceu de algum boneco seu ter o manipulador substituído? A mudança foi notada pelas crianças?
FG – Boneco meu não, mas infelizmente isso já aconteceu em programas. Por aí deve ter acontecido mais, mas na TV Cultura só me lembro de um extraterrestre do primeiro Rá Tim Bum, que inicialmente era manipulado pelo Chiquinho Brandão e durante as gravações foi substituído pelo genial Luciano Ottani. Mas isso para o personagem é sempre prejudicial. Geralmente quando isso acontece, seja na manipulação de um boneco, num dublador de filme ou até num ator de telenovela, essa mudança “soa” muito estranha para o público, fazendo com que este personagem não decole, independente do talento de seu substituto. Mas veja bem, “geralmente”, claro que podem haver exceções.

ITV – A presença de bonecos em nossa televisão é grande, alguns dirigidos ao público adulto. Como explicar esse fascínio que eles causam em pessoas de todas as idades?
FG – A presença de bonecos em programas de TV já foi maior, quando teve uma “moda” de se colocar bonecos indiscriminadamente em TV, o que gerou alguns bons personagens, como o ótimo Louro José, manipulado pelo Tom Veiga, e uma infinidade de “nadas”. Bonecos que estavam ali por estar, sem nenhuma função dramática. Puramente tentativas de êxito comercial que não deram em nada, exatamente por isso. O fascínio de um personagem bem criado, bem definido é sempre muito grande, tanto em crianças quanto em adultos. Basta ver o retorno que um programa como o Cocoricó, criado especificamente para as crianças, tem com o público adulto. Os adultos que eventualmente nos visitam nos estúdios conversam diretamente com os bonecos, sem sequer olhar para a cara dos manipuladores, mesmo que estes estejam ao lado do boneco, completamente aparentes. E com as crianças acontece o mesmo, elas conversam com os bonecos, chegam a abraçá-los, sem olhar na nossa cara.

ITV – Você passou por alguma situação embaraçosa quando estava manipulando algum dos seus personagens?
FG – Embaraçosa não, mas a manipulação de bonecos, de modo geral é um trabalho bem difícil. Certa vez durante a filmagem de um comercial com o Prof. Lactobacilos da Yakult, boneco criado pelo Sílvio Galvão, tive de segurá-lo no alto durante muitas horas, não durante todo tempo da filmagem, mas esta durou 18 horas, e ele pesava sete quilos.

ITV – O improviso está presente na hora de contar suas histórias?
FG – Hoje em dia menos, dentro de programas que têm roteiro, mas sim, sempre existe o improviso, caco, em todos os programas que faço, atuando, manipulando ou dirigindo.

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No comercial da Yakult ao lado de Alvaro Petersen e do Prof. Lactobacilos.

ITV – Seus bonecos divertem assim como ensinam, pra você até onde vai o seu papel na formação da criançada?
FG – Acredito que o meu papel e o de qualquer profissional da televisão, que invade milhares e milhares de casas independentemente das diferenças sociais, é o compromisso de trazer diversão para o espectador, sim. Mas porque não tentar ajudar a formar um cidadão melhor? Principalmente as pessoas que trabalham para o público infantil, ou aqueles programas que não são especificamente para este público, mas que notoriamente são assistidos por crianças, devem ser melhor pensados. Invadimos lares e somos responsáveis pelo que transmitimos. Você pode ajudar a formar um bom cidadão sem ser chato, basta se interessar pelo assunto, pesquisar, procurar, ir atrás. Dá trabalho, mas vale a pena.

ITV – Você pensa em ensinar esse ofício algum dia?
FG – Sou bastante procurado para isso e acredito que é apenas uma questão de tempo, literalmente. Hoje dirijo o Cocoricó e um novo programa que deve estrear em breve na TV Cultura. Além de continuar criando e confeccionando bonecos e isto absorve absolutamente todo meu tempo. Mas tenho muita vontade de ensinar a criar e confeccionar bonecos e manipulá-los para TV e teatro.

ITV – A partir de 1997 você passou a atuar também como diretor de programas infantis, essa experiência te deu mais liberdade para trabalhar como manipulador?
FG – Infinitamente sim! Quando assumi a direção de programas com bonecos pude realizar infinitas cenas que sempre soube serem possíveis de realização e que antes, por desconhecimento dos diretores era impossível de se fazer. Não tenho dúvida nenhuma, e também nenhuma falsa modéstia, em dizer que o Cocoricó que é exibido hoje em dia (a nova temporada estreou em 2003) está entre os melhores programas de bonecos do mundo, inclusive sendo reconhecido nos festivais internacionais. Foi vencedor do primeiro Prix Jeneuse Iberoamericano entre outros. Hoje em dia os personagens do programa fazem quase tudo, como por exemplo encher bexigas, andar a cavalo e até mergulharem dentro d’água.

ITV – Como é trabalhar num país onde a televisão está muito presente na vida das crianças, mas há falta de investimento na educação?
FG – Há falta de investimento na televisão, principalmente para bons programas infantis. Basta ver que, com exceção feita à TV Cultura, que mesmo dentro de todas as dificuldades que passou e passa, continua tentando produzir programas de excelente qualidade, só a Rede Globo tenta a sua maneira manter uma boa programação para as crianças. Por mais que se conteste o conteúdo de programas como o Sítio do Pica Pau Amarelo e até o programa da Xuxa, devemos agradecer muito à Rede Globo por investir em programas como estes, que ainda nos dão alguma opção para o espectador. Deveria ser obrigatório, por lei, que cada emissora (todas são concessões públicas) tivesse um tempo determinado por dia para produções voltadas ao público infantil. E produções locais, não simplesmente preencher o horário com exibição de desenhos animados estrangeiros. E isso não é nenhum nacionalismo meu, adoro vários desenhos, mas com a produção local obrigatória, além de falarmos de temas mais próximos à nossa realidade, geraríamos mais empregos para profissionais da área. Mas para concluir, se falta investimento na televisão, o que dirá na educação?!

ITV – Quais são os assuntos preferidos do público infantil?
FG – Assuntos compatíveis com a realidade deles. Você pode falar de quase tudo com as crianças, desde que a forma de falar esteja adequada à faixa etária que se deseja alcançar. Tudo pode ser interessante, depende de como o assunto é abordado.

ITV – A influência que a mídia exerce sobre as crianças é muito grande. Como detectar as manipulações e como escapar delas?
FG – Eu sei que é “lugar comum” falar, mas a cabeça das crianças é um campo pronto para ser semeado. Praticamente o que for plantado lá, semeará. Então cabe aos adultos se preocuparem com o que seus filhos assistem na televisão. Cabe aos pais detectarem essas manipulações e a única forma de escapar delas é dando aos seus filhos a opção de assistirem programas mais interessantes. E esse é o grande mérito da TV Cultura. Ela já atingiu uma reconhecida confiança com pais que se preocupam com a boa formação de seus filhos e que sentem segurança nos programas apresentados. Esse tipo de público sabe que seu filho pode assistir qualquer programa da TV Cultura sem risco algum.

ITV – Qual a dificuldade dos pais para ensinarem o que é bom ou ruim para as crianças em relação à televisão?
FG – A maior dificuldade é a falta de conhecimento ou de interesse desses pais. É muito relativo o que é bom e o que é ruim, até porque, muitas vezes um justifica o outro. O que torna esse critério mais difícil é o fato de muitos pais assistirem junto a seus filhos programas completamente inapropriados para as crianças. Qual critério este pai vai ter para avaliar o que é bom ou ruim na formação desta criança?! A oferta de péssimos programas destinados ao público adulto durante os horários mais assistidos pelas crianças é um grave sinal de que o cuidado deveria partir das emissoras de TV, mas isso infelizmente não acontece.

ITV – Qual o ingrediente do sucesso que os infantis da TV Cultura vêm alcançando ao longo dos anos tanto de publico quanto de crítica?
FG – Além de tudo o que foi dito, esse cuidado com o cardápio que vai ser servido ao nosso público. Não que a TV Cultura acerte sempre. Claro que há erros, mas sempre dentro de uma filosofia onde o principal objetivo é acertar.

ITV – Fernando, eu agradeço pelo papo e gostaria de pedir pra que você deixe uma mensagem para os “infanautas” que leram essa entrevista.
FG – A mensagem vai para os pais: Se preocupem com a qualidade de vida de seus filhos, com a boa formação dos futuros indivíduos. Procurem selecionar as melhores alternativas para o lazer das crianças. Busquem que eles conheçam varias alternativas de diversão diferentes da TV, como passeios de final de semana. Levem-nos às livrarias, ao teatro, a shows musicais infantis como “Palavra Cantada” do Paulo Tatit e da Sandra Peres, ou espetáculos do Hélio Ziskind, que são músicos preocupados em aprimorar o gosto musical das crianças. Levem-nos para praticar e ver esportes e brinquem muito com eles. Agora quando não houver outra alternativa senão ver televisão, procurem programas que realmente sejam divertidos, mas que ajudem na boa formação do caráter de seus filhos.



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