Mário Monjardim, a voz do Salsicha no Brasil.

Entrevista realizada por Izaías Correia

Mário Monjardim , a voz do Salsicha no Brasil.

Mário Monjardim Filho, nasceu no dia 16 de janeiro em Vitória, Espírito Santo. Monjardim começou sua trajetória artística trabalhando em rádio novela antes de chegar a TV Globo, onde fez parte do elenco fundador da emissora. Depois veio a dublagem onde está até hoje como um dos mais conhecidos nomes da dublagem brasileira.

Com uma das mais engraçadas vozes da nossa dublagem e os famosos cacos: “ô diabo”, “que é isso assim”, Monjardim passou os seus mais de 40 anos como dublador interpretando engraçados personagens de desenhos animados e filmes. Em sua vasta galeria de interpretações estão: Dum-Dum (Corrida Maluca), Zé Bolha, Frangolino, Claudius Perturbado (Os Treminhões), o leão Brutus (Os Mussarelas), Joca (A Turma do Zé Colméia), Hank (Devlin, o Motoqueiro), Veenie (A Família Dó-Ré-Mi 2200), Capitão Caverna, Pernalonga e o Salsicha, além de ter feito vários papeis dos atores Jerry Lewis e Gene Wilder.

Hoje diretor de dublagem da Delart, esteve na Herbert Richers onde dirigiu por 25 anos e saiu para fugir da correria, mas parece que não adiantou muito.


“Se eu consigo com o meu trabalho passar
alguma coisa boa para a criança, eu fico feliz.”

Mário Monjardim

mariomonjardimINFANTV – Mário Monjardim, você começou em rádio-novelas. Como aconteceu esse início?
MÁRIO MONJARDIM – Bom, tudo começou por acaso. Há exatamente 50 anos, em 1954, eu fui ao dentista. E quando lá cheguei, pra espanto meu, não existia mais o consultório. Uma mocinha bonita, muito atenciosa me atendeu:
– O que é isso aqui. Não é o consultório do Dr. Vitor? – perguntei.
– Não. – me respondeu a jovem – Aqui é o escritório da Rádio Vitória.
Aí eu resolvi levar um papo com a menina:
– Que está fazendo aqui?
– Estou recebendo inscrições para o concurso de rádio ator.
E eu caipirão ainda:
– Que diabo é isso?
– Rádio ator. Pra fazer novela de rádio. Não sabe o que é, não?
– Nunca ouvi falar – eu respondi.
Como eu disse a moça era muito bonita aí resolvi me insinuar:
– E isso é bom?
– Bom, se você tiver jeito pra coisa…
– E o que é que eu preciso fazer pra me inscrever?
– Basta dar seu nome e endereço que a rádio vai chamar você.
– Então me inscreve aí que eu vou fazer esse negócio.
Eu estava mais era a fim da menina. Lá eu sabia o que era novela! E nem queria saber. Alguns dias depois não é que me chamaram mesmo! Na verdade chamaram o meu pai, que também se chama Mario. O pessoal da repartição dele fez a maior gozação:
– Oh, Mario, depois de velho você se metendo nesse negócio de rádio?
Aí ele viu que só podia ser coisa minha, me comunicou. E lá fui eu. Fiz o teste. O José Américo, o diretor, me aprovou, e aí foi como tudo começou. Em 1958 o José Américo, que a essa altura já estava na Radio Nacional, me trouxe pra cá. E na Nacional fiquei até 1965.

ITV – Depois veio o trabalho na televisão?
MM – A Tv Globo ia ser inaugurada, estavam abrindo testes para ator e eu resolvi me inscrever. Fiz os testes. O Graça Melo, que era o diretor, gostou e me contratou. E assim fomos uns dos primeiros contratados da Tv Globo. Eu, Milton Gonçalves, Gracindo Jr., Pietro Mário, Claudia Martins, pra citar apenas os que continuam meus amigos até hoje, além dos já falecidos. Fiquei pouco tempo na Globo. Me indispus com uma senhora muito famosa, que pra mim não tem talento algum pois tudo que faz é sempre ela, só muda a roupa. Como ela tinha muito prestígio, no fim do contrato me dispensaram. Mas depois disso eu andei fazendo alguma coisa na emissora: Carga Pesada, Chico Anísio, Os Trapalhões…

ITV – Essa trajetória na televisão ajudou no seu amadurecimento como ator?
MM – Antes de mais nada não me considero maduro. O trabalho de ator é sempre um aprendizado. Estamos sempre aprendendo com a certeza de que ainda temos muito a aprender.

ITV – Como você ingressou na dublagem?
MM – Ingressei na dublagem praticamente quando ela começou trazida pelo espanhol Carlos de la Riva, e a italiana Carla Civelli no filme Maverick.

ITV – Que personagem você fazia?
MM – Quanto ao papel não me lembro. Mas com certeza deve ter sido o Homem 1. Aquele que entra pra entregar um telegrama e vai embora.

ITV – O Salsicha é sem dúvida um dos seus mais marcantes trabalhos. Como esse personagem entrou na sua vida?
MM – Foi através de teste. Realmente o Salsicha me dá muito prazer em dublar. Não sei se é porque eu sou caipira que eu me identifico com tipos assim.

ITV – É, ele em nossa dublagem tem esse toque caipira que você falou e um jeitão bem brasileiro, você colocou muito do seu jeito no personagem?
MM – É, realmente eu faço o Salsicha com uma mistura de caipira e nordestino. Parece que a mistura deu certo. Apesar de já ter sido criticado por um crítico de cinema. O cara acha bonito o sotaque do Texas mas detesta o do nosso nordeste.

monjardimITV – Quando o Salsicha veio para os cinemas através do Matthew Lillard, também escolheram você para dublá-lo, você acha que sua voz combinou com o ator Lillard?
MM – Quando me chamaram para dublar o garoto no longa-metragem pra cinema eu fiquei meio incomodado. Um velho de setenta anos dublando um garoto. Mas aí eu percebi que eu estava dublando, não o garoto, mas o mesmo ator que eu dublo há trinta anos. Lá também mantiveram a mesma voz. Aí então eu me senti mais confortável.

ITV – O Pernalonga também é outro destaque em sua carreira. Recentemente a Warner fez várias trocas e você perdeu o personagem. Por que isso aconteceu?
MM – A Warner costuma de tempos em tempos reciclar os seus personagens. Isso já aconteceu várias vezes. Confesso que eu já não estava me sentindo muito à vontade no Pernalonga. E esse sentimento crescia na medida em que eu ouvia a mensagem que meu filho me obrigou a gravar pra ele no seu celular. O Pernalonga é tirado da garganta. E depois de trinta anos está claro que a nossa voz não é a mesma. Com o Salsicha é diferente pois a voz eu tiro da cabeça, não me cansa. Portanto não senti ter sido substituído pelo Alexandre Moreno. Ele está fazendo muito bem. As próximas gerações não sentirão a minha falta.

ITV – O Festus, da série Gunsmoke também é outra figura caipira muito bem dublada por você, como você conseguiu esse personagem?
MM – Ah! Doce Festus! Esse foi o personagem que mais prazer me deu em fazer. Quando íamos dublar o Gunsmoke era uma festa. Todo mundo se divertia muito. Era o caipirão. Era fácil. Eu sou caipira, portanto.
Naquela época estávamos numa merda que fazia gosto. Eu, Fiori, Patiño e Ribeiro Santos éramos os quatro cavaleiros do apocalipse. Quando surgiu o filme para teste dos quatro, o que estava em melhor situação era eu, pois já tinha papeis fixos em outras séries. O Waldir Fiori era quem estava em pior situação. Então eu falei pra ele: “Olha eu vou fazer um teste bem avacalhado pra não passar e aí você capricha. Vai dar você”. Naquela época os nossos tipos eram muito parecidos. Aliás até hoje. Resultado: o distribuidor, não me lembro se era a Warner, me escolheu. Achou que era aquilo que eles queriam. E acabou fazendo um sucesso extraordinário. Até hoje, os mais velhos ainda se lembram do Festus do Gunsmoke.

ITV – Como podemos notar você usa em alguns personagens “cacos” que identificam o seu trabalho. Isso já lhe trouxe algum tipo de problema?
MM – Os cacos fazem parte do molho que colocamos nos personagens para torná-los brasileiros. Ou pelo menos mais identificáveis com o nosso público. Não, nunca tive qualquer problema por causa de cacos. Pelo contrário, eles me dão muito prazer pois todos os meus colegas se divertem com eles. E agora estou vendo que não são só os colegas que se divertem. Consegui passar para o público também.

ITV – Seus trabalhos quase sempre estão ligados ao humor como Gene Wilder, Jerry Lewis ou o próprio Salsicha. Você se especializou nesse tipo de dublagem?
MM – É, eu me sinto mais à vontade dublando comediantes. Costumo fugir de atores sérios. O que me deixou meio sem jeito dublando o Jerry Lewis agora velho bonachão e sério e mafioso.

ITV – Esses trabalhos mais ligados ao humor e aos desenhos animados têm colocado você mais diretamente com o público infanto-juvenil. Você se dá conta da responsabilidade do que está passando?
MM – Realmente trabalhar pra criança é muito mais gostoso. Adulto pode ser falso. Quantas vezes você já ouviu, principalmente no fim de um espetáculo para o qual você foi convidado, portanto não pagou, “puxa, genial. Lindo, lindo!”. E lá adiante, “tava uma merda!”. Criança não. Se ela demonstra que gosta é porque gostou mesmo. Ou então diz na cara da gente que tava uma porcaria. E se eu consigo passar, com o meu trabalho, alguma coisa boa pra criança eu fico feliz.

ITV – Entre os atores dublados por você teve algum que foi mais difícil?
MM – Difícil, mas gostoso de fazer, foi dublar o Jack Lemmon em A Corrida do Século com o Peter Falk.

ITV – O que é mais difícil pra você, dublar atores de verdade ou desenhos animados?
MM – Pra mim é indiferente. Gosto de dublar bons papéis. Tanto desenhos como atores. O diabo é que como eu dirijo mais do que atuo, dificilmente sou chamado para dublar. E eu não gosto de me dirigir.

ITV – Se você tivesse que apontar algum momento que marcou sua carreira, qual seria?
MM – No auge do sucesso da série Gunsmoke o Ken Curtis, o ator que fazia o Festus, foi entrevistado pelo José Roberto Paes Leme. Me chamaram então para fazer a tradução simultânea, ou seja, em “voz over”. Entrariam com a voz do Ken e eu sobre a voz dele entrava com o texto em português. Era uma entrevista de mais ou menos uns dez minutos. Você deve saber que a dublagem é feita de “takes” de vinte segundos, chamados até hoje de “loops”, embora de “loops” só exista a saudade. Muito bem. Então eu falei pro americano que dirigia a dublagem que eu era dublador e ator. Ele disse: “Não, não pode porque não vai haver corte. Tem que ser direto e a dublagem vai complicar. Não podemos parar, senão tem que começar tudo de novo”. Aí eu respondi: “Está bem. Se tem que ser assim”. Aí eu fui ao técnico, que era meu amigo, pedi que ele gravasse pra mim a entrevista em fita cassete e me emprestasse o texto pra levar pra casa. Cara, foi um trabalhão dos diabos! Mas eu aceitei o desafio, que não era de ninguém, mas de mim mesmo. Marquei pausa por pausa. Eu já dublava o Festus há muito tempo, conhecia até onde ele respirava. Pra você ter uma idéia, o tradutor da série quando traduzia, escrevia “Festus fala”. E pronto eu tinha que me virar. Pois bem, no dia da gravação eu entrei no estúdio, já antecipadamente combinado com o técnico, e mandei soltar a entrevista. O americano lá lendo o texto conferindo. E eu na moita, gravando. Disseram e eu mandei ver: “Pa pa pa pa pa”. O Zé Roberto fazia a pergunta, o operador baixava o áudio e aí eu entrava. E assim foram os dez minutos. O Ken Curtis era um galã. Começou a carreira como crooner da orquestra do Tommy Dorsey e a voz era de galã. Naquela época a minha voz não era essa merda de hoje não. A voz de caipira que ele criou foi inspirada num tipo que ele conheceu quando o pai dele era delegado de uma cidadezinha lá do Texas. Isso está na gravação. Nem deve existir mais. O americano ficou doido. Lá na terra dele não existe isso não. Aqui qualquer dublador que queira fazer isso que eu fiz faz. Porque brasileiro é o melhor do mundo. E isso é em todos os sentidos. Veja uma peça teatral qualquer por exemplo. Quanto tempo, quantos meses eles ensaiam lá fora? Aqui com algumas semanas o espetáculo está pronto. O estrangeiro fica de queixo caído com a gente.

217205_1730219938591_1331256200_31581070_1096275_nITV – E caso engraçado? Tem algum de alguém ter conhecido você por sua voz?
MM – Ah, Tem! Um dia num supermercado – aliás isso aconteceu duas vezes – na hora de pagar eu vi que a caixa olhava pra colega do lado e ria muito. Eu já estava meio chateado com a cena e perguntei: “O que é? Estão rindo de que?” E a moça: “É que o senhor tem voz de desenho animado”. Isso me deixou envaidecido. O público nos reconhece portanto não somos anônimos.

ITV – Como o meio de dublagem vê atores de TV fazendo dublagens rápidas para o cinema?
MM – Nos Estados Unidos também fazem isso. Não tenho nada contra. Aliás, tenho sim. Deveríamos ganhar pelo menos a metade do que eles ganham.

ITV – Qual a sua opinião a respeito da TV a cabo no Brasil, que traz tantos enlatados e os exibe com legendas?
MM – É uma falta de vergonha. Deveriam respeitar mais o idioma nacional.

ITV – Você defende que os programas dublados no Brasil deveriam ter créditos finais para os dubladores?
MM – É, seria bom. Não custaria muito e faria justiça a esses profissionais tão injustiçados.

ITV – Mário Monjardim, muito obrigado por sua entrevista, gostaria que você deixasse uma mensagem aos visitantes do InfanTv.
MM – A única mensagem que me ocorre no momento é que eu gostaria que o público prestigiasse mais os filmes dublados, porque é a nossa língua que está ali. Para tanto, estamos, tanto empresários como profissionais da dublagem, tentando melhorar cada vez mais a qualidade do nosso trabalho. E para encerrar quero agradecer, do fundo do meu coração, a oportunidade que vocês me deram de me dirigir ao público internauta.

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