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INFANTV
-
Garcia, você começou
sua carreira muito cedo, né?
GARCIA JR.
-
É, eu comecei exatamente com dois anos de idade na Tv Tupi, em 1969,
num programa de televisão chamado "É Fácil Ser Feliz".
ITV -
Como foi esse início?
GJ -
Olha nessa fase, na verdade, eu não sabia nem o que estava fazendo. Meu pai
era produtor desse programa, do Omar Cardoso, que era um astrólogo que tinha
um programa em São Paulo e ele precisava de um cúpido, de uma criança de uma
idade bem baixa pra que ficasse ali, basicamente no palco, enquanto os
cantores se apresentavam. Fizesse mais ou menos uma figuração ali e falasse
umas coisinhas engraçadas. Como eu tinha a idade certa pra isso acabei
fazendo o papel. Eu tinha o cabelo encaracoladinho, então cai bem de cúpido
naquela época, mas eu não tinha muita noção do que eu tava fazendo.
ITV -
A Fátima Mourão,
disse que lembra de você, ainda muito menino, indo aos estúdios de dublagem.
Como é que você seguiu o caminho dos seus pais?
GJ -
Pois é, isso aconteceu na verdade...foi uma contra-mão. Eu fiz esse programa
na Tupi em 1969 e depois ainda fiz mais dois infantis na Tv Record, um do
Durval de Souza e outro do Palhaço Pimentinha, e durante algum tempo com uns
4 ou 5 anos e tal, fazendo parte do elenco infantil do que era a Xuxa na
época, digamos assim. Mas só que meus pais não queriam essa carreira pra
mim. Meus pais começaram em rádio, depois foram pra dublagem, meu pai também
fez assistência de direção em cinema e televisão, e eles sabiam o quão
difícil essa carreira é em vários aspectos.
Então, verdadeiramente, eu fui
criado dentro da rádio São Paulo, depois acompanhei meu pai aos estúdios
desde sempre, bem como minha mãe, mas eles não queriam essa carreira pra
mim. Isso aconteceu meio que por acaso, porque o Olney Cazarré que fazia o
Pica-pau,
mudou-se pro Rio de Janeiro. Eu, embora more hoje no Rio de Janeiro, more a
28 anos no Rio de Janeiro, sou paulistano com muito orgulho, e estava em São
Paulo em 1977, evidentemente, quando o Olney mudou-se pro Rio, pra fazer
televisão, pra fazer novela. Conseqüentemente, abriu-se uma lacuna ali no
personagem principal da série o
Pica-pau.
Eu fiz o teste de brincadeira, e mais porque a minha mãe insistiu, porque eu
era muito tímido ainda, e sempre fui! Hoje em dia eu lido melhor com isso,
mas quando criança era difícil de lidar. Eu fiz o teste, e na verdade
mandaram pro distribuidor e ele acabou me escolhendo.
ITV -
Grande
responsabilidade substituir o Cazarré ainda menino, né?
GJ -
Pois é, verdade! E foram duas coisas muito interessantes. Primeiro porque o
Ednir que era o responsável pela MCA – Universal, na época, ele falou:
“gostei dessa menina”, aí falaram: “mas não é menina, e outra, ele nem é
dublador, ele é filho do Garcia Neto“, ele disse: “bom, filho de peixe,
peixinho é, vocês mandaram eu escolher é quem eu quero pra fazer”.
Um outro diretor
na época, na verdade, era quem iria dirigir a série, uma pessoa muito
querida e que teve uma postura de honestidade pra comigo e pra com meu pai
muito grande, porque ele quando soube que eu iria fazer o personagem, ele
falou: “bom, eu não quero dirigir. Eu não vou pegar uma pessoa que não é
profissional pra encabeçar uma série dessa responsabilidade, eu não vou
fazer isso”. Meu pai então se apresentou e disse: “olha, eu e a Dolores
pedimos pra ele fazer o teste, de brincadeira, ele acabou fazendo e acabou
ganhando, eu vou assumir essa responsabilidade, porque eu acho que ele tem
capacidade de fazer”. Duas semanas depois que eu tinha iniciado o trabalho,
eu nunca tinha dublado até então, esse outro diretor sentou-se conosco,
comigo e com meu pai e disse: “olha eu vim aqui pra te pedir desculpas, como
homem, porque eu tive essa atitude, assim, assim...e foi uma atitude
equivocada de minha parte”. E foi muito bacana ele ter feito isso, ter
tomado essa atitude, né? E a partir dali eu comecei a minha carreira na
dublagem e segui durante um bom tempo nela.
ITV -
Você já começou por
cima, então, logo com o
Pica-pau.
GJ -
É (risos), sei lá! Posso te dizer que sim, ainda mais na responsabilidade de
substituir o Olney, que depois voltou a fazer o
Pica-pau,
graças a Deus, porque era a pessoa correta pra esse personagem, sempre foi o
melhor de todos sem dúvida nenhuma.
ITV -
O trabalho de
dublador geralmente é realizado em cima de uma voz original que já existe.
Em
Tv Colosso,
foi o inverso, vocês tiveram que ajudar a criar as personagens. Explique um
pouco desse processo.
GJ -
Ah, foi um trabalho muito legal! Primeiro porque eu trabalhava com amigos
queridos. Eu devo muito essa parte da criação também à direção do Mário
Jorge que é uma pessoa generosíssima como diretor, então me deu bastante
liberdade pra trabalhar, foi uma pessoa que me deu também papéis incríveis,
coisas até que não fizeram sucesso, mas foram coisas que ninguém esperava
que eu pudesse fazer, de repente um velho palhaço numa novela mexicana,
entendeu? E ele me deu essa oportunidade. Na mesma linha, ele me deu o
presente de poder criar esses personagens a partir apenas das
características físicas e também emocionais, digamos assim, dos personagens.
No caso o JF que era o diretor, o dono da Tv Colosso,
então uma coisa
muito assim (imitando o JF), aquela coisa que manda muito, e o
Thunderdog, aquela coisa muito do Thunderbird (imitando o Thunderdog) que
fazia a MTV na época, então não era uma coisa muito difícil e tal.
ITV -
E o Daniel também...
GJ -
O Daniel, exatamente! Baseado num colega nosso, um profissional, numa
caricatura de um colega nosso, o Ricardo Schnetzer, (imitando o Daniel)
uma coisa meio assim e tal, mas de novo uma homenagem que nem tem haver
com o tipo físico do Ricardo nem nada, mas uma coisa gostosa porque ele era
um cara bonachão, gente boa, bom caráter e bacana como o Ricardo é. Me
lembrou ele, eu fiz e o Mário também comprou a idéia e me deixou ir por
esse caminho.
ITV -
Devem ter sido horas
cansativas de trabalho.
GJ -
A gente fazia o que é mais ou menos os "Simpsons" no original. Éramos 10
atores fazendo todos os personagens da
Tv Colosso,
então fazíamos todos os outros cachorrinhos que pintavam esporadicamente e
varávamos a madrugada gravando aquele programa lá.
Rapaz, era muito difícil, principalmente no começo porque a gente teve
que...na verdade todos nós estávamos ali fazendo aquele tipo de trabalho
pela primeira vez, então no início mesmo, era bastante difícil porque além
das vozes dos personagens em si, nós fazíamos o som guia pros atores que
ficavam dentro dos bonecos, então se a gente não estava dublando
efetivamente nas casas de dublagem, normalmente que a gente freqüentava, ou
a gente tava fazendo som guia ou a gente tava gravando
Tv Colosso
de madrugada. Então, nós passamos uns três meses assim, aquela equipe de
onze pessoas com o Mário, como verdadeiros zumbis, a gente dormia no chão
do estúdio e eu passava em casa só pra tomar banho. Mas é tão saboroso
lembrar disso, é legal, os
discos
que a gente gravou. Eu tenho até hoje os dois
LPs
todos autografados por todo mundo da
Tv Colosso,
por todos os nossos colegas, enfim, foi uma época muito bacana,
recompensadora no sentido profissional mesmo.
ITV -
He-Man,
foi sem dúvida um dos maiores destaques da sua carreira. Como esse
personagem entrou em sua vida? Foi teste?
GJ -
Não foi teste porque quem distribuía a série na época era o próprio
Herbert Richers e ele fez uma escolha de elenco, baseado naquilo que ele
acreditava que era o melhor, inclusive em termos de resposta de trabalho,
assim como aconteceu com
Os Gatões,
que eu e o Mário fazíamos os dois principais, o Bo e o Luke. Na verdade eu
não iria fazer o
He-Man,
eu iria fazer apenas o príncipe Adam, o He-Man era pra ter sido outro
dublador. Ele fez o primeiro dia de dublagem, enfim eu não quero citar
porque não sei se ele quer ser citado ou não, mas eu sei como ele já tinha
feito outro super-herói desse nível, e que tinha um bordão muito forte
também, ou talvez ele não quisesse ficar muito marcado por conta disso, eu
sei que na metade do dia de gravação, ele virou pra diretora, pra Ângela, e
falou assim: “Ângela você me perdoa mas eu não quero mais fazer. Fica
tranqüila que eu vou resolver isso, eu vou entrar lá e vou conversar com o
Herbert, não é nada!” E realmente não tinha havido nenhum tipo de problema,
não houve nada, não houve nenhum problema entre equipe ali, foi uma coisa
dele mesmo. Ele saiu do estúdio e foi falar com o Herbert e de lá de dentro
veio ordem pra que eu fizesse os dois.
ITV -
A partir dali você
teve que compor a dupla personalidade do personagem...
GJ -
Exatamente, a partir dali eu passei a fazer o Adam de uma forma um pouco
mais leve e engrossar um pouco mais a voz quando fazia o He-Man.
ITV - Quantos
anos você tinha na época, Garcia?
GJ -
17 anos.
ITV - Com 17
anos já estava preparado pra essa tremenda repercussão?
GJ -
É, foi engraçado porque a primeira vez que eu me toquei que essa série tinha
um impacto tão grande foi quando um amigo meu que estudava economia na PUC,
falou assim pra mim: “cara eu vou te levar no bandejão da PUC, porque você
não vai acreditar o que é que é essa série, fica todo mundo ali no bandejão
de pescoço duro pra cima - porque era uma televisão colocada assim no alto -
vendo o He-Man ali na hora do almoço. E eu fui almoçar com ele no bandejão e
eu não acreditei, porque era exatamente assim, aquela marmanjada toda
almoçando no bandejão e assistindo
He-Man.
ITV
- O filme
foi dublado em São Paulo, né? Você e o Isaac foram chamados pra dublar o
filme assim mesmo. Isso prova que a voz do He-Man não tem substituto.
GJ -
É, foi engraçado porque na época que o filme estava pra ser lançado eu
morava em Portugal, então meu pai conversou com a distribuidora e falou:
“Olha, ele tá morando lá, ele teria que vir”. Eu morei nove meses lá, ou
seja, deu tempo de eu voltar e fazer o filme ainda. Enfim, foi muito
gratificante também, foi interessante ter passado por essa experiência.
ITV -
Agora Arnold Schwarzenegger! Como foi que ator acabou tendo a voz do Garcia
Júnior no Brasil?
GJ -
Isso foi outra coisa que eu devo ao diretor Garcia Neto, meu pai, ele me
escalou, ele conversou com a pessoa que era administradora na época, na
Herbert, a Helena. A gente tinha assistido, na verdade, "Conan - O Bárbaro"
no cinema, eu e ele, a gente tinha ido assistir juntos e gostamos muito. Eu
falei: “Pô, o cara é forte, tem uma voz assim e tal”. E aí ele falou: “Bom,
eu acho que dá pra você fazer. A partir dali, foi a primeira vez que dublei
o Schwarzenegger, e foi mais ou menos na época que o
He-Man,
na verdade, era um cara forte também, de espada e tal, acho que houve essa
associação.
ITV -
Falando nisso,
não é comum as pessoas conhecê-lo pessoalmente, e dizer que achavam que você
tinha corpo de halterofilista? (risos)
GJ -
(risos)
Às vezes acontece! Hoje em dia nem tanto, engraçado isso, mesmo porque as
pessoas não reconhecem tão facilmente, elas não associam exatamente. Eu tava
com um amigo outro dia no elevador, engraçado isso, a pessoa fica olhando
pra trás e vê que não é exatamente quem ele esperava que fosse, mas também
não sabe quem é, e aí fica uma coisa meio confusa na cabeça dela.
Com 17 anos
aconteceu isso, porque eu era muito magrinho, e houve duas coisas muito
engraçadas, primeiro porque eu não gostava de falar que eu fazia o He-Man,
eu tinha muita timidez nesse sentido, eu não conseguia, não gostava que a
pessoa viesse pra mim e dissesse: “Da pra você fazer a voz”, morria de
vergonha disso, então eu evitava. E uma vez eu fui a uma festa com um amigo
e ele fez o favor de dizer: “É...ele é quem faz a voz do He-Man”, aí o cara
pra quem ele tava falando isso, olhou pra mim e disse: “Sai pra lá! Quem faz
o He-Man é um amigo meu”. Aí eu virei assim pro meu amigo e disse: “Tá
vendo? Isso é pra você deixar de ser mentiroso na frente dos outros, eu
disse que um dia você ia encontrar alguém que conhecesse quem faz o He-Man!”.
Aí ele ficou com a cara dura, e pronto, acabou com a brincadeira dele nesse
sentido.
ITV -
Garcia, o Jorgeh Ramos dublou o primeiro Exterminador. Por que que isso
aconteceu? Você já tinha dublado o Conan, né?
GJ -
É... porque na época esse filme tinha sido dublado na Delart, e você sabe
como é que é, dublagem tem uma coisa muito imediata, às vezes você tem que
cumprir um prazo de entrega e uma série de coisas que saem muito da mão do
cliente e do diretor. Talvez tenha havido ambos os aspectos ali. Primeiro,
do cliente não ter nenhuma importância pra ele que se mudasse a voz e que
não necessariamente fosse a mesma pessoa que tinha feito o Conan, e segundo
porque talvez tivesse uma pressa de prazo que eu não pudesse atendê-los
naquele momento, eu não sei muito bem qual teria sido o caso. De qualquer
maneira também o Jorgeh foi muitíssimo bem.
ITV - Um
dos trabalhos mais primorosos de sua carreira é o Roger Rabbit. Ali você
mostra o talento necessário de um dublador que é mudar a voz. Comente um
pouco sobre isso.
GJ -
Olha, como você falou bem no início da nossa conversa, a gente tem como
premissa a questão daquilo que o original propõe, porque muitas vezes você
recebe um trabalho pra dublar muito em cima da hora e na questão original as
pessoas pesquisaram meses uma série de outros aspectos daquelas personagens
pra compor um filme animado ou uma série. Então, conseqüentemente, se você
for atrás daquilo que está no original você não vai errar, porque tudo
aquilo foi pensado durante mais tempo do que você teve pra pensar durante a
dublagem. Então é sempre o que eu procuro analisar, procuro ver o que está
sendo feito no original e procuro chegar mais ou menos perto, na medida do
possível, da minha dicção vocal.
ITV - Aí
o talento também conta, né?
GJ -
Aí tem uma estradinha. Quando você já tem alguns anos de chão você vai
aprendendo a ficar melhor nesse aspecto. Experiência é muito importante, não
é tudo evidentemente, começa-se pelo princípio do talento, mas a experiência
é fundamental. Eu sempre digo: “Como é que eu dublei sem nunca ter dublado”,
eu nunca tinha dublado, mas eu assistia dublagem durante dez anos da minha
vida. Então assistir um determinado trabalho e ver como ele funciona é muito
importante pra você aprender alguma coisa daquilo, mesmo sem querer. Eu me
peguei depois pensando sobre esse processo.
Quando criança, quando eu ia pro
estúdio depois da aula encontrar com meu pai e minha mãe, eu sentava lá
quietinho e muitas vezes como eu não tinha nada o que fazer, quando o ator
tava ali memorizando a fala ou ensaiando, eu decorava junto e dublava
mentalmente. Era meio que uma brincadeira de dublar pra passar o tempo.
Então quando eu comecei a fazer a coisa já tava meio que orgânica em mim e
isso é fundamental, que a gente tenha alguma experiência, que a gente estude
aquilo que a gente vai fazer, seja em dublagem, teatro, cinema, televisão e
rádio.
ITV -
Você dublou em São Paulo e no Rio. Qual a grande diferença entre as duas
dublagens?
GJ -
As pessoas falam muito de regionalismo, o que eu acho que não pesa tanto. Eu
acho que a boa dublagem é aquela que consegue impersoalisar isso, ou seja,
você nem ficar dublando carioquês nem paulistês nem nada que seja muito
calcado em sotaques regionais. Eu acho que antigamente, a questão de uns 20
ou 30 anos essa preocupação era um pouco maior, hoje em dia, claro, como
você tem muitas coisas, séries aproximadas do cotidiano, essas séries
fantásticas que a gente tinha como
Túnel
do Tempo,
Terra
de Gigantes,
Perdidos
no Espaço, não é mais uma tônica das series televisivas, elas estão
mais se aproximando a um Seinfield, Friends, às coisas que vêm mais próximas
da nossa realidade ou da realidade cotidiana americana. Há uma maior
necessidade de se traduzir isso para uma realidade local e evidentemente se
você está em São Paulo você vai traduzir para sua realidade local em São
Paulo se você está no Rio vai traduzir essa realidade local para o Rio de
Janeiro. Fundamentalmente é isso.
Eu conheço os profissionais dos dois mercados e tenho um profundo respeito
pelos bons profissionais dos dois mercados.
ITV -
No que a experiência trabalhando em frente às câmeras, como na novela
Tudo ou
Nada ou em episódios do Você Decide, contribuiu para sua formação como ator?
GJ -
Eu fiz muito teatro também aqui no Rio de Janeiro. Durante cinco anos eu
trabalhei com grandes diretores, com uma grande diretora excelente de
musical e de um feeling maravilhoso que é a Cininha de Paula; eu trabalhei
com Sergio Tierre que além de ser um grande
diretor é um tremendo de um mestre, uma pessoa generosíssima no seu processo
de trabalho, no sentido de ensinar mesmo, de trocar com os atores com quem
ele trabalha, então eu fui muito feliz de trabalhar com duas pessoas assim
de um calibre enorme, de uma experiência e de uma generosidade muito grande
em teatro.
Eu acho que é fundamental pro ator, mesmo que ele se fundamente na dublagem
ou qualquer outro seguimento da carreira, que ele diversifique, porque
primeiro ele vai ver as diferentes dificuldades que cada veículo coloca pra
ele e ele vai ter que passar essas barreiras, passar essas dificuldades,
aprender a lidar com elas e aprender a lidar com outras tecnalidades de
diferentes vertentes da profissão do ator. E acho que isso só vem a
enriquecer o seu trabalho. E na verdade também a dublagem foi muito
importante quando eu cheguei nessas outras vertentes porque você tem um
poder de compreensão de texto e de síntese desse texto através do fato de
você ter visto e lido muita coisa de forma muito rápida e muito imediata.
Então eu acho que a dublagem ajuda muito o ator nessas outras áreas e essas
outras áreas ajudam muito o ator dentro da dublagem.
ITV -
Dentro da imensa filmografia que você tem, algum personagem te marcou e pouca
gente o menciona?
GJ -
Eu gosto muito de um trabalho. Engraçado que houve uma crítica antes dele
estrear. Eu fiz rádio também, eu fui locutor de rádio em Portugal, comecei
minha carreira como locutor lá em Portugal e depois trabalhei aqui no Rio de
Janeiro em algumas rádios. E quando eu voltei de Portugal, eu tinha
assistido lá um filme com Robin Williams chamado "Bom Dia Vietnã", que ele
fazia um locutor em Saigon. Eu achei o filme fantástico e como eu tinha
ambas experiências, esse filme eu pedi muito pra fazer. Pedi o texto antes,
o script, levei as coisas pra casa e estudei aquilo, coisa que hoje em dia
eu fico muito feliz que muita gente faz, mas não era uma coisa muito
habitual na época em que aconteceu, 1989 mais ou menos. E eu procurei fazer
realmente o melhor deste trabalho, acredito que tenha conseguido fazer um
trabalho satisfatório com a direção maravilhosa do José Santanna que foi
primordial também e generosissimo pra que eu pudesse alcançar um trabalho
satisfatório.
Mas o engraçado é que um jornal do Rio de Janeiro antes do filme ser exibido
na Rede Globo, e como era um filme realmente muito difícil que ele falava
muito rápido, o jornal colocou assim: “E a dublagem deve estar
estragando....deve.... estar estragando o filme.”
ITV -
(risos) O eterno pré-conceito com a dublagem, né?
GJ -
(risos) Exatamente! Isso sempre me marcou. Essa história! Esse filme
ficou com essa colocação, antes de ele ser exibido na televisão tinha uma
crítica negativa à dublagem. Mas a maior crítica positiva veio de um grande
colega, um grande profissional que foi o Newton da Matta, que após a
exibição do filme, no dia seguinte ele escreveu uma resenha e colocou lá no
quadro da Herbert Richers elogiando o trabalho e tal, de forma muito
generosa. Newton falecido e que fazia brilhantemente o Bruce Willis.
ITV -
Que companheiro de dublagem te deu mais prazer em trabalhar? Com qual
aprendeu mais?
GJ -
Ah, Izaías essa pergunta é impossível de ser respondida, porque a
lista não iria acabar hoje! Eu digo a você o seguinte: eu aprendi com todas
as pessoas com quem eu trabalhei na minha vida em dublagem. Verdadeiramente,
pode parecer clichê e confete, mas não é não! Mesmo com as pessoas com quem
eu não me identifiquei, tive dificuldades, essas me ensinaram outras coisas
muito importantes como quando você aprende com grandes profissionais. Agora
o fato de eu ter assistido, por exemplo em São Paulo, na minha época de
criança, profissionais da maior grandeza trabalharem durante tantos anos, eu
não quero dizer nomes aqui porque eu vou esquecer tanta gente boa, mas,
Nelson Batista, Marcos Miranda, José Soares, meu Deus do céu! É uma
infinidade de nomes que não vai caber nessa lista, mas aprendi com cada e
todos eles.
ITV -
Atualmente você é diretor de criação da Disney Character Voices International.
Comente sobre esse trabalho.
GJ -
Eu sou responsável por todos os trabalhos em português da Disney uma
coisa abrangente e delicada, evidentemente. Me dá muito prazer de poder
trabalhar com gente tão talentosa e descobrir gente nova. Trabalhar com
gente que está em outras vertentes, em outros mercados, eu trouxe muita
gente do teatro pra fazer os nossos musicais principalmente, gente de
qualidade vocal e técnica como cantores estupendos e atores maravilhosos,
enfim é um trabalho difícil porque lida com uma série de produtos e títulos
muito grande, mas é um trabalho que me dá muito prazer.
Então Garcia, escalar
atores da Tv para animações da Disney, é uma prática que vem levantando
críticas de fãs da dublagem e até de alguns profissionais da área. O que
você acha disso?
GJ -
Primeiro que eu não vejo isso como crítica, eu acho que cada um diz o
quer, porque é direito de cada um manifestar o seu pensamento de forma livre
e completa. O que eu tenho a dizer é o seguinte: eu trabalho com
atores...ponto.
Atores que são profissionais...ponto de novo, estejam eles na
dublagem, no cinema, na televisão, no teatro ou no rádio. Eu conheço muita
gente de tantas outras áreas que são bons atores e não são bons
profissionais e vice e versa. Eu trabalho com atores e bons profissionais.
ITV -
Seria a mesma coisa de vetar um dublador na televisão.
GJ -
É...Aliás, um dia, a Marieta Severo disse isso muito bem, Marieta
falou: “Engraçado, eu não pergunto o que o cara faz todo dia quando ele vai
fazer uma peça de teatro, o que me interessa é saber se ele é bom e se ele é
profissional”.
ITV -
Seu trabalho com a criação da Disney tem roubado todo o seu tempo a ponto de
não mais dublar?
GJ -
Veja bem, eu acho que aí são duas coisas Izaías. A questão de não
dublar mais é porque como eu estou em outra função nesse momento, tá na hora
de dar vez pra garotada que está chegando aí (risos). Eu sou um jovem senhor
que está primeiramente sem tempo pela questão do meu trabalho, mas também
porque eu estando nesse outro cargo, as pessoas que estão aí no dia a dia
batalhando a carreira é que tem que ter esse espaço pra militar e pra
trabalhar. Evidentemente acontece um Arnold Schwarzenegger, se uma coisa
especial acontece...
ITV -
Como Os Simpsons – O Filme ou o
Exterminador 3...
GJ -
Sim, e como agora eu fui convidado pela Columbia para fazer a voz do
James Bond do Daniel Craig pro filme em cinema. Eu fiquei muito feliz, mas é
muito esporádico realmente porque o tempo realmente me falta. Eu ainda estou
estudando a noite, faço faculdade de cinema, então fica um pouco complicado.
ITV -
Você foi por muitos anos a voz de atores como Schwarzenegger, Harrison
Ford e Robin
Williams, Van Damme, no início não deu um certo ciúmes ao ouvi-los dublados por outros
companheiros de
trabalho?
GJ -
Olha, honestamente
não. Eu sempre procurei entender esse aspecto, se você não tá fazendo, outra
pessoa tem que fazer. Na verdade os outros colegas que foram fazendo, ou
faziam juntos, porque na verdade o Harrison Ford o Julio César que o dublou
na série do "Indiana Jones" enquanto eu dublava outros filmes. O Kevin
Costner que eu dublava o Hélio Ribeiro também dublava muitíssimo bem. Então
a gente sempre meio que dividiu esses personagens.
ITV - O
Nizo Neto uma vez me disse que não existe essa coisa de voz oficial.
GJ -
É, exatamente! E
mesmo porque Izaías, enquanto você é o ator vivo e presente, você está lá,
mas quando você deixa de existir, tudo bem, você deixa de existir como um
todo. Agora, a voz não, o ator pode continuar e o dublador pode mudar de
profissão, pode vir a falecer, pode ficar milionário e querer viajar o mundo
inteiro. Então, conseqüentemente é impossível você manter essa coisa. Não
existe isso, você realmente desassocia a voz do corpo. Se você
está disponível tudo bem, se você não está você vai ser substituído e
evidentemente também é uma questão de critério, de repente o diretor ou
distribuidor diz assim: “não, eu não acho que essa seja a melhor pessoa, ou
a pessoa talhada pra fazer esse papel, eu acredito que tenha uma pessoa que
se encaixe melhor nesse personagem”. E é normal que isso aconteça.
Realmente ciúmes
disso não, mesmo porque estão super-bem divididos com pessoas do maior
talento, no caso do Guilherme Briggs fazendo o Denzel Washington, enfim só
gente boa fazendo coisas boas, então não tem do que reclamar.
ITV - O
mercado de Dvd no Brasil tem sido uma piada, com lançamentos de filmes até
com dublagem em espanhol, mas sem a dublagem em português. Você sabe a que
se deve essa prática?
GJ -
Eu não sei porque
um DVD seria lançado com uma dublagem em espanhol e não em português, o que
eu sei, o que eu sinto das pessoas em geral e do mercado é que é primordial
que você tenha a dublagem no DVD, porque o público realmente prefere quando
existe a dublagem português em DVD. Os motivos que fazem com que as
distribuidoras lancem alguns títulos com dublagens apenas em espanhol sem o
português eu não sei.
ITV -
Garcia, muito obrigado pelo papo, sucesso! Eu queria que você deixasse uma
mensagem para os Infanautas.
GJ -
A única
mensagem que eu queria deixar é a de carinho e de agradecimento por todas as
mensagens que eu tenho lido e de parabéns também ao site que eu tenho lido
as entrevistas de outros colegas e tenho visto a seriedade e o carinho que
vocês têm tido com a profissão da dublagem especificamente, que é uma coisa
tão difícil e muitas vezes não reconhecida da maneira como ela deveria ser.
Entrevista realizada por Izaías Correia
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