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INFANTV
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- Como você ingressou no mundo da dublagem?
FÁTIMA MOURÃO - Sempre admirei o trabalho de dublagem, mas, na época, com
17 anos, estava priorizando a carreira de atriz, investindo no teatro e na
TV. Soube por um amigo que uma empresa de dublagem, a hoje já extinta Peri
filmes (Rio de Janeiro), estava fazendo testes, admitindo e treinando novos
atores para dublagem. Estava sem trabalho e, por muita insistência desse
amigo, resolvi me submeter. Na verdade, não coloquei muitas expectativas no
assunto, mas, pra minha surpresa, passei.
No mesmo dia em que fiz o teste, à noite, fiquei sabendo que a classe de
dubladores estava já há algum tempo em greve, por melhores salários e
condições de trabalho, o que era justo. As empresas de dublagem, para
contornar a situação, estavam contratando novos atores para substituir o
elenco anterior. Resolvi então não aceitar.
Fui
procurada diversas vezes e aleguei que não aceitaria um trabalho, mesmo
precisando, sabendo que estaria prejudicando a sobrevivência de colegas. Uma
semana depois, o dono da empresa, mandou o seu filho na minha casa com uma
mensagem de que a greve havia terminado.
Os dubladores já estavam na ativa e que ele contava comigo no elenco.
Aceitei é claro. Não poderia mais resistir aos chamados do destino.
Aproveito a oportunidade para homenagear Ralfh Normman, dono da Peri filmes,
saudoso amigo, falecido há muitos anos, por seu ´feelling´, percebendo,
antes mesmo de mim, que eu poderia me tornar uma boa profissional.
ITV -
Lembra do seu primeiro personagem de destaque?
R - Sim, foi lá mesmo na Peri, numa série chamada “James”. Um garoto de
mais ou menos 14 anos, super-bonitinho, que dava o maior ibope com as
garotinhas da escola. Eu o protagonizei. Foi uma experiência muito legal,
que me rendeu vários personagens masculinos por um tempo.
ITV -
Uma
personagem cuja dublagem realizada por você é clássica, a Dorothy, foi
redublada em São Paulo. Qual sua opinião sobre essa prática?
FM -
Não sabia que "O Mágico de Oz” tinha sido redublado. Em vídeo e DVD,
ainda continua com a minha voz, pelo menos a primeira versão, com a
inesquecível Judy Garland. Não acho legal esse procedimento, a menos que
haja uma razão de força maior, como, por exemplo, a deterioração sonora das
matrizes. Não sendo assim, devem ser preservadas as vozes originais – e,
mesmo nessa hipótese de redublagem, devem ser priorizadas as vozes da
primeira versão, exceto, claro, na impossibilidade, por óbito ou doença do
dublador. É preciso entender que a dublagem é um trabalho artístico, que não
pode receber tratamento de descartável.
ITV
-
Quando adquiri minha primeira versão em Dvd do filme “...E o Vento Levou”,
que notei que a dublagem realizada por você não estava lá, fiquei
decepcionado. Recentemente, o filme foi relançado com a dublagem original.
Você acredita que as distribuidoras estão se dando conta de que o público
também considera a dublagem parte do clássico?
FM -
Infelizmente, a grande maioria não tem essa visão. Mas há quem tenha.
Acho que, nesse caso de “...E o Vento Levou”, deve ter havido cobrança do
público e do estúdio que detém os direitos da obra. Eles são bem exigentes
para liberar obras desse porte. Tanto assim que a Herbert Richers teve que
se submeter a cuidados especiais na dublagem desse filme, para atender aos
requisitos exigidos. Teve que preceder a dublagem de rigorosos testes de
seleção e cercá-la de todos os cuidados técnicos. Desperdiçar todo esse
trabalho seria burrice – e isso deve ter influído na avaliação da primeira
versão em DVD. A segunda, que é a que está em circulação, já levou em conta
essas premissas.
ITV -
Você esteve ao lado do André Filho em dois papéis de grande destaque, em o
"Mágico de Oz" e em toda a série para o cinema de "Super-Homem". Conte-nos
algo sobre o dia-a-dia ao lado desse ícone da dublagem.
FM -
Foi muito bom, aliás, tive o prazer de trabalhar com ele em diversos
filmes. O falecimento do André foi sem dúvida uma grande perda para a
dublagem no Brasil. Ele tinha, além de uma belíssima voz, muita facilidade e
naturalidade para dublar e quem trabalhava ao seu lado ou se atrapalhava
todo com sua habilidade, ou aprendia bastante. No meu caso, penso que
aprendi. Onde você estiver André, receba minhas lembranças e homenagens.
ITV -
Há alguma personagem que você dublou que pouca gente menciona, mas que pra
você foi inesquecível?
FM -
Várias. Posso citar alguns exemplos: “Uma Secretária de Futuro” com
Melanie Griffith, comédia romântica muito simpática e gostosa de ver;
"Novela" com Sally Field, delícia de comédia. Dublei uma série sobre a
história do balé clássico, com a renomada bailarina Margot Fontaine, na
época com 60 anos. Foi muito interessante. Eu ainda não havia dublado alguém
com esta idade, a não ser velhinhas caricatas em desenhos, o que aliás eu
adoooro fazer! Foi um desafio e também uma investida da diretora Ângela
Bonatti (na época da Herbert Richers), que acreditou na minha capacidade e
mais uma vez me surpreendi. Não imaginei que a minha voz teria esse alcance.
O trabalho ficou muito bom e a oportunidade me proporcionou um 'up grade' na
carreira. Há uma em especial que é uma versão primorosa da clássica história
de terror do "Dr. Jekyll e o Sr. Hyde"; ”Mary Reilly”, com Júlia Roberts e
"John Malkovich". Foi um trabalho que eu gostei imensamente de fazer. Foi
muito difícil interpretar a Júlia nesta deslumbrante atuação. Sem falsa
modéstia, não deixei a desejar.
ITV -
Você e o Garcia Jr. davam um show de interpretação quando diferenciavam o
Príncipe Adam do He-Man e a Princesa Adora da She-Ra. Fale um pouco da
composição dessa personagem.
FM
-
Foi fascinante dublar a She-Ra/ Adora. Meus filhos e sobrinhos estavam
pequenos na época e eu curti muuuito! Fazer parceria com o JR, que
considero, além de excelente profissional, um grande amigo e parceiro de
trabalho, foi maravilhoso. Conheci Garcia JR ainda pequeno, indo com seus
pais à Herbert, por vezes para acompanhá-los e em outras para dublar. Desde
pequeno, demonstrou talento nessa arte e sempre foi muito disciplinado,
conquistando assim o respeito e admiração da classe, dos distribuidores e
dos representantes como os da Walt Disney. Nós ficamos muito afinados com as
séries, porque nos dávamos bem e gostávamos muito de fazer os personagens.
Participamos na época de várias entrevistas de jornais, revistas e programas
de TV, como o programa da Xuxa. A série me proporcionou, a cada capítulo,
aprimorar minhas habilidades e criatividade no desempenho da composição da
personagem: Adora com sua docilidade de princesa e She-ra com sua
determinação e poder de super-heroína. Foi tão fácil me tornar fã das duas
que eu entrava no estúdio me sentindo da mesma forma com que entrava em
casa, bem íntima e à vontade.
ITV -
Recentemente lançaram o
Dvd
com o melhor de She-Ra no Brasil, contendo a
dublagem original, o que prova que você é a voz eterna da heroína por aqui.
Acredita que se um dia lançarem um filme da personagem, independente da
atriz que faria a She-Ra, você seria chamada para dublá-la?
FM -
Não quero pensar que essa série possa retornar, ou algum longa-metragem
baseado nela seja feito sem que eu esteja dentro. Não creio que isso possa
acontecer, porque as vozes ficaram muito marcadas: “Pela Hooonra de
Greyskull!!! Eu sou Sheee-rrraaaaa!!!” – e sou mesmo. E aceitaria, é claro!
Hoje, moro em Brasília, mas posso estar no Rio ou em Sampa – e
freqüentemente estou nessas cidades, onde tenho família – em uma hora e
meia, e ficar por quanto tempo seja necessário para trabalhar.
ITV -
Alguns dubladores não gostam de aparecer em frente às câmeras, outros
trabalham em frente a elas. Você está mais para que tipo de dublador?
FM -
Já apareci em frente às câmeras antes e durante o exercício da profissão.
Não tenho nenhuma dificuldade com isso. Ainda planejo participar de uma peça
infantil escrita pelo meu marido, o escritor e jornalista Ruy Fabiano
Rabello, e dirigida por minha enteada e produtora Júlia Rabello. Tenho
grandes esperanças que isso ainda possa acontecer. Aguardem-me, eu aviso...
ITV -
Há algum caso engraçado ou curioso que aconteceu por conhecerem você pela
voz?
FM -
Há alguns. Semana passada mesmo, aconteceu. Eu estava terminando uma
conversa telefônica com uma amiga na porta de uma floricultura. Ao meu lado,
estava uma moça com aproximadamente 19 anos. Quando terminei, ela me disse:
“Desculpe, mas achei que a senhora tem voz de dubladora”. E eu respondi:
“Pois eu sou”. E ela então se animou: “Sua voz me lembrou de um filme que
não foi da minha época, mas que eu já assisti 17 vezes: ‘...E o Vento
Levou’”. Daí eu respondi: “Pois fui eu quem dublou a atriz principal”. Ela
então entrou correndo na loja, chamando a mãe e dizendo: “Mãe a dubladora da
Scarlet Hohara está na nossa loja! Foi muito legal isso acontecer depois de
tanto tempo. Trocamos telefones, conheci uma fã e ainda obtive um bom
desconto na compra (risos)...
ITV -
Depois de muitos anos dublando no Rio, você foi pra São Paulo. Que
diferenças você pode apontar nas dublagens dos dois estados?
FM -
Gostei de trabalhar nas duas cidades, Fiz bons amigos e meu trabalho teve
repercussão e reconhecimento nas duas praças. Trabalhei muito mais tempo no
Rio e lá foi a base do meu aprendizado e desempenho como dubladora e
diretora de dublagem. Em São Paulo, fiz direção na Sigma (Jorge Barcellos) e
dublei em todas as outras da cidade. Os paulistas têm muita técnica e adoram
o jeitinho despojado e criativo do carioca de dublar. Tentei passar essa
vivência para os atores de lá e aprendi também muito com eles. A galera
costumava brincar, quando recebia uma escala em meus filmes. Diziam: “Oba!
Hoje, vou dublar carioca!”

ITV -
Na sua passagem por São Paulo, o que você dublou?
FM -
Muitas coisas. Dirigi e dublei Matrix pra versão TV - já o Matrix pra
versão DVD foi no Rio (De L’Art). Dublei o Marry Reilly, como já disse
acima, e uma série muito gostosa de fazer, acho que vocês já conhecem
“Jovens Bruxas”, “O Pacificador”, com Nicole Kidman. E assim muitos outros.
ITV -
Você imortalizou a voz da Lois Lane, da She-ra e de outras tantas
personagens no Brasil, depois sua voz simplesmente não foi mais ouvida em
novos papéis. Por que parou de dublar?
FM -
Antes de responder quero lembrar a personagem Olívia Palito de “Popeye”,
que fiz por 15 anos e foi muito gratificante. Foi um desafio de criação
artística. Tive, ao lado do meu querido amigo Orlando Drummond, que fazia o
Popeye – e que considero um dos grandes dubladores brasileiros -, ampla
liberdade para trabalhar o personagem. Na verdade, não considero que tenha
parado. Volto sempre que me chamam, como foi o caso de “Matrix”. Casei-me
com um jornalista que tem sua vida estabelecida em Brasília. Amo dublar e
amo estar ao lado dele, então tive que fazer uma escolha e estou feliz com
ela. Tenho disponibilidade para estar nas duas cidades e fazer os trabalhos
em que for solicitada. Já fiz isso algumas vezes e quero que isso continue a
acontecer.
ITV -
Então podemos esperar sua voz o mais breve possível em novos personagens?
FM -
É como
acabei de dizer: reduzi o ritmo, mas não parei. Estou à disposição e espero
que eventuais convites continuem a acontecer. Sinto falta e gosto muito
desse ofício que considero uma arte - e sei que é preciso talento para
exercê-lo. Sei que há muitos profissionais capacitados - e sei que sou um
deles. O mercado está aí e eu estou aqui.
ITV -
Fátima, muito obrigado pelo
papo. Gostaria que você deixasse uma mensagem aos infanautas.
FM -
Quero aproveitar a gentileza de
terem me chamado para esta entrevista e agradecer cardiacamente o carinho
dos que reconhecem e valorizam o meu trabalho. Estou à disposição de vocês
quando quiserem. Um abraço afetuoso a todos.


O Melhor de She-Ra:
A Princesa do Poder -
Dublagem original
Entrevista realizada por Izaías Correia |