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INFANTV
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Fernando, você ingressou na Tv Cultura no
Bambalalão. Como foi esse início?
FERNANDO GOMES
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Minha história na TV Cultura é bem curiosa, porque comecei a trabalhar lá de
uma forma um tanto inusitada. Em 1985 descobri meio sem querer um programa
infantil chamado
Bambalalão.
Comecei assistindo de vez em quando, e quando dei conta estava gravando o
programa em casa para que pudesse assistir todos os dias.
Me divertia muito, em especial com os quadros de teatro de bonecos, e passei
a me perguntar porque aqueles bonecos eram, para mim, tão especiais,
diferentes de outros, dos outros programas infantis. A diferença estava na
genialidade de seus manipuladores, especialmente Memélia de Carvalho e
Chiquinho Brandão. O programa era ao vivo, e essas entradas de bonecos
durante o programa eram feitas sem texto pré definido, ou seja, os
manipuladores "criavam" o que iam dizer na hora, o que gerou vários momentos
antológicos dentro desse programa. A liberdade que esses atores tinham os
levaram a criar personagens inesquecíveis e com personalidades bem
marcantes, muitas vezes, aparentemente, até contraditórias a uma TV
educativa, pois tínhamos lá por exemplo um menino bem mal-criado, o João
Balão, interpretado pelo grande Chiquinho Brandão, que assoava seu nariz na
cortina do teatro de bonecos e se não bastasse isso, ainda fazia uma bolinha
de meleca com a mão e quando jogava para cima, esta caía com um som de
explosão e câmeras tremendo. Tinha também outro personagem do Chiquinho que
era considerado o maior sucesso do programa: o Bambaleão, um leãozinho
paquerador ao extremo e profundo mau caráter.
Onde entra minha relação com a TV Cultura e toda essa história? Certo dia eu
estava no teatro, esperando um espetáculo começar, e ouvia uma voz muito
familiar ao meu lado. Era a Memélia de Carvalho, e eu me apresentei, e
contei a ela um pouco sobre mim, na época ator amador e recém formado em
artes plásticas. Disse a ela que adorava o programa e por influência deles
havia feito um boneco manipulável.
Ela se interessou muito e pediu para conhecer este boneco. Marcamos novo
encontro, e quando ela o viu, adorou, ficou encantada e me pediu para usá-lo
no programa. Claro que eu adorei e cedi o boneco à ela. Quando ela chegou no
programa com ele, na época batizado de Boninho, vários dos atores me
procuraram para que fizesse bonecos para eles. Eu não tinha absolutamente
nenhuma prática e levava meses para fazer, mas acabei fazendo amizade com o
elenco, o que levou com que eu fosse recomendado pela Helen Helene para
cobri-la durante uma semana em que ela teria de se ausentar do programa.
Fui, adorei, mas uma semana passa muito rápido. Na semana seguinte o sonho
acabou, e eu estava quietinho quando tocou o telefone e era a diretora (Zita
Bressane, na época) me perguntando porque eu não estava lá para gravar o
programa. Voltei e desde então nunca mais saí da TV Cultura.
ITV -
E como
a manipulação de bonecos começou a fazer parte da sua vida?
FG
-
A minha primeira influência foi sem dúvida nenhuma
um programa que tive a sorte de ser exibido durante minha infância:
Vila Sésamo,
com os maravilhosos bonecos criados por Jim Henson, também criador do genial
Muppet Show.
Depois também assisti a primeira temporada aqui no Brasil do
Topo Gigio,
que dividia o quadro com Agildo Ribeiro, e já adulto os bonecos do
Bambalalão,
como disse.
ITV -
De
onde você tira referências para a criação de um boneco? Eles são inspirados
em alguém que você conhece?
FG
-
Das formas mais variadas. Muitas vezes brincando
com o material sai alguma forma interessante e isso já pode significar o
nascimento de algum personagem. Alguns bonecos podem até ficar
coincidentemente parecidos com alguém, mas inspirado mesmo em alguém que eu
conheço acho que só fiz um, usado no programa Agente G da TV Record. Ele era
a cara do diretor do programa na época que também havia passado pelo
Bambalalão:
Arlindo Pereira.
ITV -
Teve
algum personagem com características suas?
FG
-
Não físicas, mas pessoais. Meu primeiro boneco na tv era o
Beleléu, um carioca, torcedor do Flamengo assim como eu.
ITV -
Quais
as principais diferenças nas características de um personagem criado na
época do
Bambalalão
para outro criado nos dias de hoje?
FG
-
Em programas como o
Bambalalão
onde não havia texto para os bonecos era mais fácil que os personagens
sofressem influência dos manipuladores. Já programas como o
Castelo Rá Tim Bum,
Cocoricó
e outros onde se segue um roteiro, o que você faz é dar vida a um personagem
dentro de seu habitat ficcional.
ITV -
Tem
como apontar um personagem preferido ao longo desses anos?
FG
-
É aquela velha história de você pedir a um pai que
diga qual filho gosta mais. Mas tenho muita saudades de personagens que já
foram, como o Beleléu e o Gaspar do
Bambalalão,
o X do
X-Tudo
e principalmente o Mestre Iodo, que era o braço direito do Gérson de Abreu
no Agente G.
ITV -
Depois
de criar, confeccionar e começar a manipular um personagem, você chega a
penetrar tanto no mundo dele a ponto de tratá-lo como um ser vivo, mesmo
quando ele não está sendo manejado?
FG
-
Mais ou menos. Claro que existe um carinho e um
respeito muito grande por estes personagens, mas é mais ou menos igual ao
carinho e apego que um ator tem, ou deveria ter, pelo personagem que está
interpretando. Se de repente eu fizer um assassino no cinema ou teatro, por
melhor que este personagem seja, ele existe no cinema ou no teatro. Adoro os
bonecos que fiz e faço, mas nunca conversei com eles em casa.
ITV -
Quando
você cria um boneco que será manipulado por outro ator, como o Bebê e Vovô
Alegria da Eliana, fica algum ciúme?
FG
-
No início da carreira sim. Mas acho que isso está
ligado a uma ansiedade típica de quem está entrando na profissão. Hoje em
dia já crio os personagens pensando nos prováveis manipuladores e só torço
para que eles sejam bem manipulados, tratados com cuidado e respeito, e que
sejam explorados ao máximo dentro de sua expressividade.
ITV - Já
aconteceu de algum boneco seu ter o manipulador substituído? A mudança foi
notada pelas crianças?
FG
-
Boneco meu não, mas infelizmente isso já aconteceu
em programas. Por aí deve ter acontecido mais, mas na TV Cultura só me
lembro de um extraterrestre do primeiro
Rá Tim Bum,
que inicialmente era manipulado pelo Chiquinho Brandão e durante as
gravações foi substituído pelo genial Luciano Ottani. Mas isso para o
personagem é sempre prejudicial. Geralmente quando isso acontece, seja na
manipulação de um boneco, num dublador de filme ou até num ator de
telenovela, essa mudança "soa" muito estranha para o público, fazendo com
que este personagem não decole, independente do talento de seu substituto.
Mas veja bem, "geralmente", claro que podem haver exceções.
ITV -
A
presença de bonecos em nossa televisão é grande, alguns dirigidos ao público
adulto. Como explicar esse fascínio que eles causam em pessoas de todas as
idades?
FG
-
A presença de bonecos em programas de TV já foi maior,
quando teve uma "moda" de se colocar bonecos indiscriminadamente em TV, o
que gerou alguns bons personagens, como o ótimo Louro José, manipulado pelo
Tom Veiga, e uma infinidade de "nadas". Bonecos que estavam ali por estar,
sem nenhuma função dramática. Puramente tentativas de êxito comercial que
não deram em nada, exatamente por isso. O fascínio de um personagem bem
criado, bem definido é sempre muito grande, tanto em crianças quanto em
adultos. Basta ver o retorno que um programa como o
Cocoricó,
criado especificamente para as crianças, tem com o público adulto. Os
adultos que eventualmente nos visitam nos estúdios conversam diretamente com
os bonecos, sem sequer olhar para a cara dos manipuladores, mesmo que estes
estejam ao lado do boneco, completamente aparentes. E com as crianças
acontece o mesmo, elas conversam com os bonecos, chegam a abraçá-los, sem
olhar na nossa cara.
ITV -
Você
passou por alguma situação embaraçosa quando estava manipulando algum dos
seus personagens?
FG
-
Embaraçosa não, mas a manipulação de bonecos, de
modo geral é um trabalho bem difícil. Certa vez durante a filmagem de um
comercial com o Prof. Lactobacilos da Yakult, boneco criado pelo Sílvio
Galvão, tive de segurá-lo no alto durante muitas horas, não durante todo
tempo da filmagem, mas esta durou 18 horas, e ele pesava sete quilos.
ITV -
O
improviso está presente na hora de contar suas histórias?
FG
-
Hoje em dia menos, dentro de programas que têm
roteiro, mas sim, sempre existe o improviso, caco, em todos os programas que
faço, atuando, manipulando ou dirigindo.
ITV -
Seus
bonecos divertem assim como ensinam, pra você até onde vai o seu papel na
formação da criançada?
FG
-
Acredito que o meu papel e o de qualquer
profissional da televisão, que invade milhares e milhares de casas
independentemente das diferenças sociais, é o compromisso de trazer diversão
para o espectador, sim. Mas porque não tentar ajudar a formar um cidadão
melhor? Principalmente as pessoas que trabalham para o público infantil, ou
aqueles programas que não são especificamente para este público, mas que
notoriamente são assistidos por crianças, devem ser melhor pensados.
Invadimos lares e somos responsáveis pelo que transmitimos. Você pode ajudar
a formar um bom cidadão sem ser chato, basta se interessar pelo assunto,
pesquisar, procurar, ir atrás. Dá trabalho, mas vale a pena.
ITV -
Você
pensa em ensinar esse ofício algum dia?
FG
-
Sou bastante procurado para isso e acredito que é
apenas uma questão de tempo, literalmente. Hoje dirijo o
Cocoricó
e um novo programa que deve estrear em breve na TV Cultura. Além de
continuar criando e confeccionando bonecos e isto absorve absolutamente todo
meu tempo. Mas tenho muita vontade de ensinar a criar e confeccionar bonecos
e manipulá-los para TV e teatro.
ITV -
A
partir de 1997 você passou a atuar também como diretor de programas
infantis, essa experiência te deu mais liberdade para trabalhar como
manipulador?
FG
-
Infinitamente sim! Quando assumi a direção de
programas com bonecos pude realizar infinitas cenas que sempre soube serem
possíveis de realização e que antes, por desconhecimento dos diretores era
impossível de se fazer. Não tenho dúvida nenhuma,
e também nenhuma falsa modéstia, em dizer que o
Cocoricó
que é exibido hoje em dia (a nova temporada estreou em 2003) está entre os
melhores programas de bonecos do mundo, inclusive sendo reconhecido nos
festivais internacionais. Foi vencedor do primeiro Prix Jeneuse
Iberoamericano entre outros. Hoje em dia os personagens do programa fazem
quase tudo, como por exemplo encher bexigas, andar a cavalo e até
mergulharem dentro d'água.
ITV -
Como é
trabalhar num país onde a televisão está muito presente na vida das
crianças, mas há falta de investimento na educação?
FG
-
Há falta de investimento na televisão, principalmente para bons programas
infantis. Basta ver que, com exceção feita à TV Cultura, que mesmo dentro de
todas as dificuldades que passou e passa, continua tentando produzir
programas de excelente qualidade, só a Rede Globo tenta a sua maneira manter
uma boa programação para as crianças. Por mais que se conteste o conteúdo de
programas como o Sítio do Pica Pau Amarelo e até o programa da Xuxa, devemos
agradecer muito à Rede Globo por investir em programas como estes, que ainda
nos dão alguma opção para o espectador. Deveria ser obrigatório, por lei,
que cada emissora (todas são concessões públicas) tivesse um tempo
determinado por dia para produções voltadas ao público infantil. E produções
locais, não simplesmente preencher o horário com exibição de desenhos
animados estrangeiros. E isso não é nenhum nacionalismo meu, adoro vários
desenhos, mas com a produção local obrigatória, além de falarmos de temas
mais próximos à nossa realidade, geraríamos mais empregos para profissionais
da área. Mas para concluir, se falta investimento na televisão, o que dirá
na educação?!
ITV -
Quais
são os assuntos preferidos do público infantil?
FG
-
Assuntos compatíveis com a realidade deles. Você pode falar de quase tudo
com as crianças, desde que a forma de falar esteja adequada à faixa etária
que se deseja alcançar. Tudo pode ser interessante, depende de como o
assunto é abordado.
ITV -
A
influência que a mídia exerce sobre as crianças é muito grande. Como
detectar as manipulações e como escapar delas?
FG
-
Eu sei que é "lugar comum" falar, mas a cabeça das crianças
é um campo pronto para ser semeado. Praticamente o que for plantado lá,
semeará. Então cabe aos adultos se preocuparem com o que seus filhos
assistem na televisão. Cabe aos pais detectarem essas manipulações e a única
forma de escapar delas é dando aos seus filhos a opção de assistirem
programas mais interessantes. E esse é o grande mérito da TV Cultura. Ela já
atingiu uma reconhecida confiança com pais que se preocupam com a boa
formação de seus filhos e que sentem segurança nos programas apresentados.
Esse tipo de público sabe que seu filho pode assistir qualquer programa da
TV Cultura sem risco algum.
ITV -
Qual a
dificuldade dos pais para ensinarem o que é bom ou ruim para as crianças em
relação à televisão?
FG
-
A maior dificuldade é a falta de conhecimento ou de interesse desses pais. É
muito relativo o que é bom e o que é ruim, até porque, muitas vezes um
justifica o outro. O que torna esse critério mais difícil é o fato de muitos
pais assistirem junto a seus filhos programas completamente inapropriados
para as crianças. Qual critério este pai vai ter para avaliar o que é bom ou
ruim na formação desta criança?! A oferta de péssimos programas destinados
ao público adulto durante os horários mais assistidos pelas crianças é um
grave sinal de que o cuidado deveria partir das emissoras de TV, mas isso
infelizmente não acontece.
ITV -
Qual o
ingrediente do sucesso que os infantis da Tv Cultura vêm alcançando ao longo
dos anos tanto de publico quanto de crítica?
FG
-
Além de tudo o que foi dito, esse cuidado com o
cardápio que vai ser servido ao nosso público. Não que a TV Cultura acerte
sempre. Claro que há erros, mas sempre dentro de uma filosofia onde o
principal objetivo é acertar.
ITV -
Fernando, eu agradeço pelo papo e gostaria de pedir pra que você deixe uma
mensagem para os “infanautas” que leram essa entrevista.
FG
-
A mensagem vai para os pais: Se preocupem com a
qualidade de vida de seus filhos, com a boa formação dos futuros indivíduos.
Procurem selecionar as melhores alternativas para o lazer das crianças.
Busquem que eles conheçam varias alternativas de diversão diferentes da TV,
como passeios de final de semana. Levem-nos às livrarias, ao teatro, a shows
musicais infantis como "Palavra Cantada" do Paulo Tatit e da Sandra Peres,
ou espetáculos do Hélio Ziskind, que são músicos preocupados em aprimorar o
gosto musical das crianças. Levem-nos para praticar e ver esportes e
brinquem muito com eles. Agora quando não houver outra alternativa senão ver
televisão, procurem programas que realmente sejam divertidos, mas que ajudem
na boa formação do caráter de seus filhos.
Entrevista realizada por Izaías Correia |