|
INFANTV
-
Amadei, como começou essa trajetória tão vitoriosa na Tv? Você sempre quis
trabalhar em televisão?
MARCELO AMADEI
-
Eu já era jornalista quando foi criada a Escola de Comunicação e Artes -
ECA. Até por tradição familiar, pois sou neto, filho e pai de jornalistas.
A profissão estava para ser regulamentada e achei natural fazer o curso
superior de jornalismo da USP. Até então, só havia o da Cásper Líbero, que
na época era fraquinho. Só não me sentia muito confortável com tal “sina”.
Não por falta de vocação, mas porque, como todo jovem, não queria ter uma
vida assim tão previsível. Gostava de escrever, embora sentisse mais atração
pela imagem. Principalmente cinema e fotografia.
Minha relação com a imagem é séria e acabou em casamento, mas começou como
brincadeira. Com brinquedinhos, mesmo. Quando garoto, ganhei de meu avô um “polioptcon”,
que era um kit de lentes com que se podia montar binóculos, microscópio,
lunetas, etc. Tive também um “laboratório fotográfico infantil”. Em 1950,
pouco antes da inauguração da TV no Brasil, eu e meus irmãos pegamos
sarampo. A TV bem poderia dar conta de entreter três crianças presas num
quarto, né?... Só que ela não chegou a tempo. Meu pai comprou um projetor de
cinema 16 mm e vários filmes para nos distrair. Como no final de Casablanca:
foi o início de uma bela amizade. Porém, ver e rever os filmes acabou não
sendo o bastante para mim. Passei a projetá-los de trás pra diante, cortando
fotogramas, reeditando cenas. Até montava e desmontava meu novo amigo a ver
o que mais ele podia fazer.
No cinema de meu outro avô, em Santa Bárbara d´Oeste, eu assistia às sessões
de dentro da cabina de projeção, infernizando um pouco a vida do velho
Sebastião, o projecionista. Tião era o meu Alfredo, como o do Cinema
Paradiso. Além de maravilhoso, o filme tem valor especial para mim: toda
vez que o revejo vem à tona emoções da minha própria infância.
Já adolescente, acompanhava minha irmã Marli, que foi modelo fotográfico dos
Brinquedos Estrela e da Mentex, nos cliques do German Lorca - um dos maiores
fotógrafos do Brasil. Ver de perto o trabalho do mestre estimulou ainda mais
meu gosto pela arte da fotografia.
Sou formado em Rádio e TV pela ECA. Mas havia feito minha matrícula para o
curso de jornalismo. Como tive boa média de aprovação no vestibular e as
vagas para jornalismo eram as mais disputadas, havia a possibilidade de
mudar de curso no segundo ano. Quis estudar cinema, só achava difícil
seguir carreira em mercado de trabalho tão restrito. (Fazer cinema no Brasil
da época era como ser astronauta, pilotar Fórmula-1, sei lá... Carreira para
poucos, né? Mais uma forma genial – e cara - de expressão artística do que
propriamente uma profissão). Gostava também de Rádio e TV. Pedi a
transferência e nunca me arrependi. Sou formado na primeira turma. Mais
tarde, voltei para lá como professor, por alguns anos.
INFANTV
-
E o
trabalho na
televisão?
MA
-
Já trabalhava em televisão. Só que não via isso como trabalho. Eu tinha uma
banda de rock (The Hits) com um programa semanal na TV Paulista, Canal 5 (predecessora
da atual Rede Globo). O programa chamava-se Ritmos da Juventude, apresentado
por Antonio Aguilar. Adorava a agitação de uma TV feita inteiramente ao
vivo. Pura adrenalina. Tão divertido que nem pensava nela como uma atividade
profissional. Fiquei encantado e contagiado pelo mundo mágico dos estúdios:
câmeras, luzes fortes e todo aquele trabalho dinâmico e criativo dos
produtores, escritores, atores, cenógrafos e técnicos operando seus
fantásticos equipamentos. Acima de tudo, as pessoas incríveis com quem
passei a conviver. (Como “Os Incríveis”, hehehe). Gente como Roberto Carlos,
por exemplo, que tive o privilégio de acompanhar em sua primeira exibição na
TV aqui em São Paulo e em muitas outras vezes, na Jovem Guarda; Rita Lee,
que era minha vizinha e colega no Liceu Pasteur. Um universo tão fascinante
que - como diria Luís Guimarães no famoso soneto: - Resistir quem há-de?...
ITV
-
O
Bambalalão é um dos mais lembrados programas pelos “infanautas”. Eu recebo
muitos e-mails de pessoas recordando com carinho o infantil. Como você vê
esse carinho até hoje?
MA
-
Com alegria e emoção. Muitas dessas crianças são ou foram meus alunos nas
faculdades onde leciono. Outras, já casadas, até lamentam que seus filhos
não tenham um
Bambalalão
para assistir, embora ainda existam bons programas
infantis – sobretudo na Cultura. Entre os fãs do programa estavam meus
próprios filhos – que já me deram netinhos maravilhosos.
ITV
-
Como nasceu o
Bambalalão?
MA
-
Na mente privilegiada da Gigi. Ela já é bem conhecida como apresentadora,
além de atriz e escritora. Há ainda muito mais de competência, seriedade e
talento naquela cabecinha linda.
Foi de fato um privilégio dirigir o Bambalalão. O mérito da idéia original
deve ser creditado à minha querida amiga Gigi Anhelli, pioneira titular e
absoluta da série. Mais do que apresentadora, a Gigi era a própria cara do
Bamba. O programa teve início despretensioso, mas logo mostrou todo o seu
potencial, levando a TV Cultura a apostar mais forte naquela iniciativa tão
promissora. Para assumir o
Bambalalão,
deixei a chefia da divisão de variedades da Cultura, trazendo alguma
experiência aprendida no
Vila Sésamo
e na direção de outro infantil: o
Curumim. Eu também havia estudado
televisão educacional no Japão, especialmente a programação voltada para
jovens. Estimulamos, no
"Bamba", um ambiente de intensa liberdade. Éramos um
time, mesmo. O elenco, a equipe de produção e a técnica tiveram participação
decisiva na evolução criativa do programa. Até os bonecos ajudavam, pois
tinham quase vida própria. Pode parecer meio maluco, mas eu batia grandes
papos com eles quando estava fora do ar. Veja bem: eu conversava muito com
os bonecos e não apenas com seus manipuladores! Sinto-me, sim, orgulhoso por
ter feito minha parte. Também me envaidece ter sido professor da Gigi no
curso de Rádio e TV da USP. Aliás, ajuda hoje a iluminar o meu caminho a
satisfação de ver ex-alunos se dando bem por aí...
ITV
-
O elenco do programa foi imortalizado por quem o assistiu. Como é que Gigi,
Silvana, Marilan Sales, Chiquinho Brandão, Fernando Gomes e todos os outros foram escolhidos?
MA
-
A
Gigi começou tudo, com o palhaço Tic-Tac (Marilan) e a Memélia de Carvalho,
que construía e manipulava com muita arte os seus bonecos. Macaco Chiquinho,
Maria Balinha e João Balão foram as criações pioneiras e inesquecíveis da
Memélia no "Bamba". Tinha o professor Poropopó (genial Chiquinho Brandão). A
Memélia trouxe dos Estados Unidos um leãozinho, que deu para o Chiquinho
manipular: o Bambaleão, que se tornaria enorme sucesso. Logo surgiu o
Carlinhos Bambalarino, que, antes era professor de história, sabia? E foram
chegando outros gênios que fizeram a história do
"Bamba", como Gérson de
Abreu, com um talento ainda mais gordo do que ele e que nem dá pra
classificar: ator, cantor, comediante, manipulador de bonecos... Aliás, o
critério natural para os que permaneceram no
Bambalalão foi justamente a
versatilidade. Todos faziam de tudo. Os três nos deixaram e serão para
sempre insubstituíveis. Como o também saudoso Chekmati. Todos se foram muito
jovens. Silvaninha entrou para substituir a Gigi que estava em férias.
Acabamos ficando com as duas. Tinha a criativa atriz Helen Hélène, que
contava historinhas a partir de qualquer elemento. Fazia coisas como botar a
xícara de café pra conversar com uma escova de sapato. O Álvaro Petersen
(Beiral), além de ator e desenhista acabou se revelando um hábil manipulador
de bonecos. O incrível Fernandinho Gomes, que começou garoto, como fã do
programa e viria a construir (e manipular) alguns dos mais fantásticos
bonecos da televisão brasileira. Tinha o Xyzz. Outros mais foram chegando,
como a gracinha da Briela. O ator Acaiabe tornou-se o nosso grande contador
de histórias. E veio a Dulce, atriz de primeira classe. Depois que Tic-Tac
saiu, tivemos outros palhaços muito engraçados como Pam Pam e Perereca. E o
mágico Bazard... Só estou falando da turma que ficou por longo período. Mas,
sempre procuramos estimular novos valores. Promovemos até concursos de
bonecos. Na verdade, muitos ótimos artistas passaram pelo
"Bamba", ao longo da
série. Se não permaneceram foi por vários e diferentes motivos, não por
falta de qualidade. Alguns apenas reluziram com o brilho dos cometas. Mas
iluminaram o "Bamba".

ITV
-
Como diretor eu sei que é difícil responder, mas como telespectador do
Bambalalão qual era o seu apresentador preferido?
MA
-
Todos adoráveis, mas a número 1 era mesmo a Gigi.
ITV
-
Você ainda tem contato com o pessoal do programa?
MA
-
Não muito. A gente se esbarra por aí. Moro pertinho da sede da “Coisa”
(lembra do Agente G, programa da Record com o inesquecível Gérson de Abreu?
– Com o Gerson mantive contato por muitos anos, até ele nos deixar.) Álvaro
Petersen e Acaiabe moram perto aqui de casa. Costumávamos caminhar juntos
pelo bairro, antes do Acaiabe ir para o Rio participar do
Sítio do Picapau Amarelo. Fernandinho Gomes e o próprio Álvaro criaram, a meu pedido, um
boneco, o repórter Ex, para o programa “Mulheres”, quando eu o dirigia. Uma
curiosidade: o Ex foi uma invasão da programação infantil de TV na adulta,
sabia? A Ana Maria Braga adorou e também quis ter o seu. Assim nasceu o
louro José. O Ratinho, em entrevista que deu ao Ex, gostou tanto que quis
nos contratar – a mim e ao Álvaro – para seu programa. Claro que não fomos,
mas sugerimos a ele a criação de um boneco próprio, que também ficaria
famoso: o Xaropinho. Silvana volta-e-meia está nos palcos de teatro e
continua linda, como a Gigi. As duas serão lindas por toda a eternidade.
Memélia, Tic-Tac, Helen, Dulce nunca mais vi. Mas, sei que estão bem e,
passe o tempo que passar, serão sempre grandes amigos. Ainda vou
encontrá-los por aí... Saudades de machucar o coração eu sinto pelo Gérson,
Chiquinho Brandão, Carlinhos Bambalarino e Chekmati. E mantenho amizade com
todos os operadores técnicos, que davam banhos de competência,
Depois do Bamba, fiz outros trabalhos com Álvaro Petersen, Fernandinho
Gomes, Sílvio Galvão (cenógrafo, aderecista, figurinista) – todos “crias” do
programa. Trabalhei também com o Zama (autor da musiquinha do
Bambalalão). A
roteirista Rosana Rios, que escreveu tantas histórias inesquecíveis para o
nosso teatrinho continua por aí, autora consagrada de livros infantis.
Saudades dela e do Chiquinho Ardito, figura maravilhosa da produção a quem
devemos muito. Ardito segurava qualquer rojão! Nunca mais o vi. A Gigi eu
vejo com certa freqüência. Agora mesmo estamos na mesma empreitada, criando
a Associação dos ex-alunos da ECA-USP. Andamos conversando também sobre
outro projeto que talvez a gente faça, mas ainda é segredo, hehehe! (Posso
adiantar que não é “A Bela e a Fera”).
ITV
-
Em 1982 o programa passou a ser transmitido ao vivo. Qual a razão desta
proposta?
MA
-
O
Bambalalão
era diário. Ao vivo de manhã e reprisado à tarde, sem qualquer
tipo de edição. Assim, não havia diferenças significativas entre as duas
formas de exibição. Mas, em geral programas gravados (que são montagens)
costumam ter características completamente diferenciadas. Costumo dizer que
são duas mídias distintas: TV e TV ao vivo. Talvez este nosso espaço seja um
pouco apertado pra gente aprofundar essa questão...
ITV
-
Mas vocês encontraram muitas dificuldades em se adaptar ao programa ao vivo?
MA
-
OK, você venceu! Vamos aprofundar um pouquinho: começa pela espontaneidade.
Num programa ao vivo, todo mundo se comporta com naturalidade. É o formato
mais adequado para se lidar com crianças - que são naturais e espontâneas
por natureza. O elenco também trabalha com maior responsabilidade e empenho,
pois não se pode errar. Mas, é claro que se erra! Ótimo, porque os erros
acabam tornando a coisa mais divertida. Menos “certinha”.
ITV
-
O “Bamba” divertia, mas também ensinava. Isso traz a sensação de ter
contribuído para formação de muitas crianças na época?
MA
-
Sim. Acima de tudo. Se divertir as crianças já nem é pouco, contribuir para
sua formação é fundamental. E dá à nossa vida um sentido mais profundo de
realização. O mesmo que costuma motivar os professores para além de qualquer
salário. Somos artistas, não professores, mas aquece o coração saber que
fizemos alguma diferença. Converso muito hoje com jovens cidadãos, pais de
família exemplares que, quando crianças, não perdiam o programa. Todos falam
da influência benéfica que o
Bambalalão
exerceu sobre suas vidas. É
gratificante e sempre emocionante.
ITV
-
O que foi o “Circo Bambalalão”?
MA
- Outra
pérola gerada na mesma cabecinha da fada Gigi.
ITV
-
Durante os quase 13 anos em que o programa ficou no ar, teve algum dia “mais
importante” que os demais? Algum dia em que o
Bambalalão te proporcionou
algo diferente?
MA
-
No
começo, o Teatro Franco Zampari - onde fazíamos o "Bamba" – ainda não tinha
instalações apropriadas de TV, como cabine de controle (switcher) e essas
coisas. Transmitíamos o programa a partir de uma carreta estacionada nos
fundos do teatro. Quase como se fosse uma externa. Num certo dia 11 de
novembro, bem no meio de um programa, vieram me avisar que o Gérson e o
Acaiabe estavam brigando na coxia (atrás da cortina que fica no fundo do
palco). Se fosse verdade, seria briga feia pelo tamanho deles. Eu, muito
ingênuo, fui lá “apartar”. Fiquei no meio dos dois. Qual não foi minha
surpresa, quando ambos me agarraram, um em cada braço, e me empurraram para
dentro do palco. Toda aquela armação – ao vivo – era só para me prestarem
uma homenagem por ser o dia de meu aniversário. Acaiabe contou uma história
escrita pela Rosana especialmente para mim: “O Rei de Olhos Azuis”. (E agora
eu era o rei! Pode?...) Enquanto Acaiabe contava, Beiral ia pintando meu
retrato. Guardo o quadro e a gravação até hoje como lembrança de uma das
maiores emoções que já senti na vida.
ITV
-
Ainda hoje, muitos “infanautas” mandam e-mails lamentando o fim do
Bambalalão? Por que o programa acabou?
MA
-
E eu é que sei? Os Beatles também acabaram (que modéstia, hein?). Não acho
que deveria ter acabado, mas... Tive outros programas na TV Cultura que
também acabaram e poderiam estar no ar até agora. A série JAZZ BRASIL, por
exemplo. Ainda hoje ouço reclamações, principalmente do primeiro time da
MPB. Os próprios artistas sempre colocaram a série como uma referência da
música brasileira na TV que nunca deveria ter saído do ar. Ou o QUEM SABE
SABE, que permaneceu por tantos anos. Assim como há outros programas
excelentes na história da televisão brasileira que nem chegaram perto de tal
longevidade.
Veja o caso do ENIGMA. Eu me lembro bem do Jô Soares reclamando – no JÔ ONZE
E MEIA - que não se conformava com a Cultura ter encerrado a série, que ele
adorava. Muita gente tem saudades do VESTIBULAR DA CANÇÃO. Estou, é claro,
puxando a brasa pra minha sardinha. Mas, quantos ótimos programas de outras
emissoras também já acabaram? Faz parte do show-business.
Por outro lado, o
"Bamba" permaneceu no ar por uma dúzia de anos. Não são
tantos os casos de sucesso assim! Mas, eu acho que ele bem poderia
regressar... Ah, sim!. Já vi pesquisas com essa pergunta - se o
Bambalalão
deveria voltar - e praticamente cem por cento das respostas foram
afirmativas. A maioria ficou até bem entusiasmada com essa possibilidade.
Uma coisa é certa: depois do
Bambalalão, em cada um dos outros maravilhosos
programas infantis que a Cultura criou, podia-se ver um pouco do
"Bamba".
Mesmo nos atuais. Ele fez escola. Assim como se podia ver no próprio
"Bamba"
a influência de programas anteriores, como o
Vila Sésamo, também produzido
pela Cultura (na premiada adaptação brasileira) e que tinha sido uma
revolução na programação para o público infantil. Bebemos nas fontes certas.
A TV Cultura sempre teve – continua tendo - os melhores programas para
crianças. Não é obra do acaso. É um processo construído com seriedade ao
longo de anos. Para essa evolução, é natural que os programas, mesmo os
melhores, abram espaço para novas propostas. Às vezes, a pequenina casa
cresce tanto que se torna um castelo (hehehe).
ITV
-
Com o fim do programa ficou a vontade de voltar a trabalhar com o público
infantil?
MA
-
Adoro crianças. O Grande Chefão lá em cima sabe disso e deve me ver com
simpatia. Tanto é que Ele me mandou três netinhos lindos de presente e que
são loucos por mim. É verdade. Sinto até certa ciumeira na família por isso.
Dizem que tenho açúcar. Na verdade, brinco com eles como alguém igual. Não
só com os meus netos. Eu me dou muito bem com todas as crianças porque elas
sabem que jogo no time delas. Continuo meio criança e não me envergonho
disso porque meu eu superior também é. E é divino. A criança que mora na
alma da gente é aquilo que temos de melhor. Basta prestarmos atenção e ela.
Ter feito programas infantis com amor e dedicação foi um privilégio. Dizia o
velho Chacrinha que quem não se comunica se estrumbica! Pois a criança é o
desafio maior que existe em comunicação. Criança é sincera e verdadeira. Com
ela não tem enganação: ou você entra na sua sintonia ou um abraço e tchau
mesmo. Quando se consegue completar essa ligação, a recompensa vale o
esforço. Eu ficaria sim, muito feliz em voltar a fazer programas infantis.
Ter trabalhado com a criançada também me trouxe maior responsabilidade
profissional, mesmo quando faço programas para adultos. Explico: é que não
consigo deixar de ver crianças na audiência adulta. Hoje em dia criança vê
tudo na TV. Sempre tem alguma na sala assistindo ao que você produziu.
Infelizmente, muitos não levam isso em conta.
ITV
-
Você assiste aos programas infantis atuais?
MA
-
Assisto. Principalmente os bons. Os ruins eu só vejo por necessidade
profissional.
As emissoras comerciais produzem ótimos e péssimos programas infantis. O que
entristece é a desproporção. A quantidade destes últimos, isto é, programas
sem o menor respeito às crianças, vistas só como consumidoras de produtos –
e estimuladas a pressionar os pais a comprarem isso ou aquilo – é grande
demais. E quando os pais não podem? É muito cruel!
ITV
-
Eu falava sobre as pessoas que sempre recordam do programa, mas você acha
que falta zelo por parte das emissoras com a memória da nossa televisão?
MA
-
Falta memória, sim. Apaga-se muita coisa por economia. As emissoras não
dispõem de estoque ilimitado de fitas de videoteipe. Aí, a vantagem
econômica da regravação se volta contra o público de hoje e contra a
sociedade de amanhã. Conservar alguns programas traz uma complicação: Quais?
Com que critério? Porque é claro que não se pode preservar tudo!
Eu acho, modestamente, que tenho uma boa solução:
Pensando para o futuro, sugiro uma parceria entre as emissoras com o Governo
e com as escolas de comunicação para a criação de uma espécie de CONDEPHAT
do Rádio e da TV. Funcionaria assim: todo programa considerado importante
seria “tombado” como patrimônio cultural do Brasil. As emissoras não teriam
que arcar nem com os custos dessa preservação – que seria absorvido pelo
Estado – e nem com o trabalho – que ficaria a cargo de estudantes e
professores de Rádio e TV. Estes atuariam tanto na avaliação e escolha dos
programas a serem preservados, quanto na própria operação do sistema. Que
tal? Talvez alguém com algum poder político bem pudesse apoiar essa minha
proposta, hein?...
ITV
-
Nesses anos todos de televisão, ficou alguma mágoa do “meio televisivo”?
MA
-
O ambiente da TV é competitivo demais. Ótimo campo para estudos sobre a
vaidade humana. Ali, não é raro a esperteza vencer o talento. Pessoas sem
caráter, falsidade, hipocrisia e “puxadas de tapete” existem em qualquer
lugar, não são um privilégio nem do rádio nem da TV. A questão é de volume.
Digamos que o número de velhacos por metro quadrado seja maior. Gente que
passaria por cima da própria mãe para subir na carreira. Noves fora as
bajulações, fofocas, maledicências... Do lado de lá da telinha tem muito pão
bolorento. Justamente por isso é que devemos valorizar ainda mais aqueles
que conseguem sobreviver íntegros, éticos, dignos. As flores no pântano. Não
são poucos. E são essenciais.
ITV
-
Amadei, muito obrigado pela entrevista. E eu gostaria que você deixasse uma
mensagem para o pessoal do InfanTv.
MA
-
Ah!... Mas eu também gostaria de receber uma mensagem:
marcelo.amadei@terra.com.br.
Já viram aqueles adesivos no vidro de alguns carros que dizem: consulte
sempre um advogado?... A minha mensagem é: consultem sempre a criança que
mora dentro de vocês!
Entrevista realizada por Izaías Correia
|